Sony Music lança álbum de Pabllo Vittar

Se alguém vir Bruno Tutida desmontado, provavelmente não irá reconhecer nele uma das mais promissoras artistas da música pop brasileira atual. Aos 28 anos, ele dá vida à cantora Aretuza Lovi, drag queen dona de uma legião de fãs e dos hits Joga Bunda, Vagabundo e Arrependida – ao lado da forrozeira Solange Almeida. Porém, muitos admiradores desconhecem a trajetória do rapaz, marcada pela superação de mazelas como a fome e a homofobia.

A musicalidade repleta de referências da Aretuza foi forjada nas andanças do jovem por diversos estados do país. Nascido em Cristalina (GO), cidade vizinha ao Distrito Federal, Bruno morou com o pai até os 12 anos. “Tive uma infância ruim, apanhei muito”, relembra.

Segundo o jovem, as surras eram a resposta brutal do genitor à sua aparente feminilidade. “O homossexual já nasce diferente. Logicamente, nessa idade, eu ainda não me via como gay, mas meu pai, homofóbico, importava-se com isso”, relata.

Mesmo já na casa da mãe, onde podia viver uma relação de carinho e tolerância, Bruno não conseguia se assumir para a família. Aos 17 anos, então, decidiu morar sozinho e foi parar em Belém (PA). “Precisava me sentir independente, foi uma coisa minha, claro que ninguém precisa sair de casa para isso, mas tinha a necessidade de me impor”, considera.

A vida longe do colo e cuidados da mãe mostrou-se muito dura para Bruno. Sem oportunidades, depois de 1 ano e meio em Belém, o artista partiu rumo a Recife. Em Pernambuco, chegou a trabalhar em algumas bandas como camareiro. “Era bem difícil. Ganhava muito pouco e o dinheiro mal dava para comprar comida”, conta. Seduzido por falsas promessas, ele decidiu tentar a vida na Bahia. No entanto, mais uma vez, não conseguiu encontrar seu lugar.

Passei fome de verdade. Voltei da Bahia para Brasília com depressão. Era uma frustração muito grande ter confiado nas pessoas erradas e voltar para a casa da minha mãe fracassado

Bruno Tutida

De volta à capital, ele iniciou o tratamento contra a doença, muitas vezes subestimada pela sociedade. “As pessoas não entendem. Nunca tentei tirar minha vida, mas tive de ser medicado. Ninguém sabe o que é depressão até sentir”, pondera. Curado, Bruno trabalhou como vendedor em loja, participou de castings e chegou a fazer bicos como modelo.

DIVULGAÇÃO

Divulgação

“Até hoje, não tenho um bom relacionamento com meu pai. Todo o resto da minha família me apoia e tem orgulho de mim”, lamenta


Recomeço nos palcos
Quando tinha 21 anos, a personagem Aretuza Lovi nasceu e mudou a vida do rapaz. “Tudo surgiu de uma brincadeira. Estava na casa de uns amigos e começamos a gravar vídeos. Vesti uma roupa da mãe dele e ele me perguntou como eu me chamaria. Do nada, veio na minha cabeça o nome: Aretuza”, recorda. “No outro dia, participei de um concurso de drags realizado por uma amiga. Só fui para pagar uma aposta. Foi a primeira vez em que tive de me montar. Me apresentei sem nada combinado”, completa.

Rapidamente, a personagem caiu no gosto dos frequentadores da noite de Brasília. Aretuza gravou o clipe de Striptease – fase na qual a cantora ia na contramão dos covers das divas norte-americanas e apostava no tecnobrega, pontapé para se tornar a drag queen mais famosa da capital.

A repercussão nacional começou com convites para participar de programas televisivos. Primeiro, no SBT, no Gabi Quase Proibida, talk-show da jornalista Marília Gabriela. Mas a consagração veio no global Amor & Sexo, no quadro Bishow. Apresentado por Fernanda Lima, a atração também serviu para popularizar os nomes das amigas da artista: Gloria Groove e Pabllo Vittar.


Quebrando paradigmas
No Brasil, artistas como Rogéria, Jane di Castro, Silvety Montilla, Deena Love, Leo Aquila e Isabelita dos Patins ajudaram a popularizar a arte e reduzir a discriminação desde a década de 1970. “O movimento da drag music não é novidade, mas a maneira como nós éramos retratadas nos programas de TV tinha muita banalização e caricatura”, avalia.

“Temos de mudar a mentalidade das pessoas a respeito da nossa profissão. É preciso muito estudo e dedicação, como em qualquer outra”, pontua a artista.

O sucesso fenomenal de Pabllo Vittar serve de combustível para Bruno (ou Aretuza). “Tenho orgulho de fazer parte desse movimento, mas acredito estar no momento de deixarmos de nos rotular. Nosso público vai de crianças a velhinhos. Ainda estamos quebrando preconceitos”, acredita.

Novos projetos
Os números de Aretuza nas redes sociais impressionam. “Hoje, as pessoas estão nos olhando com outros olhos. Já passamos muitos artistas em questão de visualizações”. No YouTube, o clipe do single Joga Bunda, em parceria com Gloria Groove e Pabllo Vittar, possui mais de 18 milhões de views.

Vagabundo, o solo mais recente, tem 2,1 milhões. Lançado há apenas um mês, Arrependida tem 1,6 milhão. “A Solange é uma pessoa linda, com uma história maravilhosa. Nós somos da mesma gravadora e ela topou de cara participar da música”, revela.

Contratada da Sony Music desde dezembro do ano passado, a performer está em São Paulo totalmente focada na produção do álbum Mercadinho. O disco contará com 12 faixas, sendo 10 inéditas e dois remix. Iza, Valesca Popozuda, Gloria Groove e Vittar já estão confirmadas na obra. “Está ficando lindo”, conclui.

 

 

 

Fonte: Quidnovi/Metrópoles