Brasília, 20 de janeiro de 2018
7 abr 2015
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Royce Gracie detona provocações de McGregor: “Perdi o respeito por ele”

Hall da Fama, vencedor de três dos quatro primeiros torneios do UFC, um dos maiores nomes da história do esporte, lenda do MMA… adjetivos não faltam para falar de Royce Gracie. O ex-lutador, que está com 48 anos, esteve no Rio de Janeiro na última semana para ministrar um seminário que aconteceu no último sábado. Na sexta-feira, o Combate.com aproveitou para fazer uma entrevista exclusiva com o filho de Hélio Gracie, que, entre outros assuntos, detonou as provocações de Conor McGregor a José Aldo. Royce garante que no lugar do compatriota, teria partido para a agressão quando o irlandês pegou o cinturão na coletiva em Dublin (IRL), durante a promoção do UFC 189, que acontecerá no dia 11 de julho, em Las Vegas (EUA).

– Ele está abusando. Eu já tinha mandado a mão na cara dele, mas acho que alguém da promoção falou que se eles brigarem os dois seriam banidos. Teve aquela do Jon Jones com o Cormier, e os caras não querem que aconteça de novo, devem ter falado que iam expulsar eles (…). O Conor é o novo. Dizem que é mais talentoso, é melhor, o do momento, mas do jeito que está falando caiu muito no meu conceito. Não gosto disso. Perdi o respeito. – disparou.

Além de falar de McGregor, Royce também garantiu que sua relação com o UFC não foi abalada após ser anunciado embaixador do Bellator, elogiou os brasileiros Demian Maia, Fabrício Werdum, Gilbert Durinho e Erick Silva, comentou os casos de doping de Anderson Silva e Jon Jones e falou sobre a sua carreira.

CONFIRA A ENTREVISTA COM ROYCE GRACIE

COMBATE.COM: Costuma vir ao Rio regularmente? Qual a sua relação hoje com a cidade?

Royce Gracie: É a primeira vez em 15 anos que venho para fazer seminário. Mas volto de vez em quando para visitar o pessoal, ver minha mãe, ir na Gracie Humaitá. O Rio é bom para visitar, comer a comida, pela variedade de frutas que tem aqui, que eu adoro. Só sinto falta da variedade de frutas daqui, do açaí.

Acompanha as notícias do Brasil de lá dos Estados Unidos?

O que acontece aqui não mostra lá fora. Mostra notícia bem pequena, pouca coisa, o que acontece mesmo não passa. É difícil, fica tudo abafado aqui dentro mesmo.

É inevitável que se fale em UFC em uma entrevista com você, mas você hoje é embaixador do Bellator. Isso interferiu de alguma forma na sua relação com o Ultimate?

O UFC sempre será a minha casa. Construí aquela casa. Agora, com o Bellator estou ajudando a expandir, os caras estão chegando, crescendo, mas tem tanto talento, tanto lutador bom por aí, que um show só não dá. Tem que ter mais de um, porque tem muito lutador bom. O Bellator está ajudando. Estou ajudando eles a expandirem o nome pelo mundo inteiro. Eles querem trazer o Bellator para a América Latina, Europa e estou ajudando também os lutadores, conversando com eles, falando que o que eles fazem fora do ringue representa também dentro do ringue. Não é ser lutador só dentro do ringue. Eu sento e converso com os lutadores direto. Não é um negócio programado. No show, vou ajudar para promover. Toda vez que posso ir lá, vou e ajudo a promover.

UFC Rio 6 - Demian Maia x Ryan LaFlare (Foto: André Durão)Demian Maia foi elogiado por Royce Gracie (Foto: André Durão)

Quem são os principais representantes do jiu-jítsu no MMA para você atualmente?

Demian Maia e Werdum, para mim, são os que melhores representam o jiu-jítsu. Adoro ver o Demian lutar. O Durinho lutou agora, finalizou o Cowboy, é bom também, gostei dele, primeira vez que vi lutar. Não perdeu tempo, fez o negócio certo. Os caras treinam jiu-jítsu a vida inteira e, quando chegam lá, querem trocar soco com o adversário. Outro que gostei, que fez um serviço bom, foi o que finalizou o Koscheck, o Erick Silva. Gostei dele, já tinha visto ele lutar algumas vezes antes, fez o jogo certinho. Moleque é bom também.

O que acha do crescimento de popularidade do MMA no mundo?

Está popular pra caramba. Está muito grande. Eu viajo sete meses do ano, da África para a Austrália. Angola, África do Sul, Filipinas, Tailândia, Camboja… Todos esses lugares com caras treinando MMA e jiu-jítsu. China, Japão, Holanda… Dei seminário na academia do Gerard Gordeau, que lutei no primeiro UFC. Ele me convidou.

Alguma história que te marcou nessa viagem que você possa contar pra gente?

Tem várias que me marcaram. Uma que marcou mais foi quando cheguei na Noruega. Tinha acabado de sair do avião, 11 da noite, jantei, estava indo para o hotel caminhando, aí já senti que houve um assalto. Não tinha ninguém na rua. Um magrinho correndo e um coroa correndo atrás dele. Perguntei para um amigo local se foi um assalto e ele disse: “Royce, não se mete”. Falei que queria saber. Alguém passou, viu o cara correndo e tropeçou o magrinho. Perguntei para o meu amigo se ele conseguia correr. Quando o cara caiu, corri para cima dele, peguei pelo gogó, botei contra o carro, aí esse amigo meu já segurou o cara também, o coroa deu um murro na cara, todo mundo falando norueguês, e eu sem entender nada. Chegou uma molecada junta, amigos do cara que tinha roubado, chegou a polícia mandando separar, e eu não entendendo nada de norueguês. O policial olhou para mim e falou: “Royce Gracie?”. Respondi: “Pois não”. Ele perguntou o que aconteceu. Falei: “Cara, não falo a língua daqui, mas acho que esse aqui roubou o coroa ali”. Ele: “Prende esse. O que mais?”. “Os amigos do cara chegaram em cima para ajudar”. O policial: “Prende eles também. O que mais?”. Falei: “Só isso”. Ele: “Agora vai embora que você não quer ir para a delegacia passar a noite lá”. E fui, sem entender nada, depois de ajudar a prender o bandido.

De que forma recebeu a notícia do doping do Anderson Silva?

Acho difícil, mas nada impossível. O cara está aí, sabe o que tem que fazer, está aí há anos, mas se fez, é humano. Caiu na tentação ou o que quer que fosse. Ele continua sendo o bom lutador que sempre foi para mim. Não vai mudar nada.

Royce Grace (Foto: Raphael Marinho)
Royce Gracie evitou polemizar sobre caso de doping de Anderson Silva (Foto: Raphael Marinho)

Você passou por situação semelhante em 2007, quando foi pego por uso do esteróide anabolizante nandrolona, depois de sua revanche com Kazushi Sakuraba. Como foi passar por essa situação?

Os caras que acusaram, não me puniram, não teve multa, não fui banido de lutar, podia lutar no dia seguinte se quisesse. Estou no mesmo peso há 22 anos, com 78kg, e o cara que acusou disse que eu tinha tanta substância no meu corpo que não conseguia nem medir. O cara que acusou, um mês depois estava trabahando para o UFC. Era um show vindo do Japão, fez o primeiro evento nos Estados Unidos, e o UFC estava querendo parar o show. Foi um cara da Comissão Atlética, que um mês depois estava trabalhando no UFC. Agora faz a matemática. Armaram para mim com certeza.

McGregor é talentoso, gosto do cara, mas caiu muito no meu conceito nessas conferências que fizeram. O outro é bicho do mato, casca grossa, campeão há anos, não perde por causa disso, sabe o que está fazendo”.
Royce Gracie

O que acha dessas provocações entre os lutadores para promover as lutas, como o Conor McGregor tem feito com o José Aldo, por exemplo?

Eu sou contra isso, mas o que ele (McGregor) não sabe é que ele coloca pressão nele mesmo. O Aldo está fazendo o jogo certo, quietinho. O McGregor está pegando o formato do Muhammad Ali. Pode falar à vontade, mas tem que provar. Se não provar, a carreira dele vai ser curta. Ele é bom, mas não precisava falar tanto. O Aldo está fazendo o jogo certo e vai provar no ringue. O McGregor já está desrespeitando. Os caras, às vezes, esquecem e perdem o respeito, mas não há necessidade disso. É como celebrar. Você vai comemorar uma vitória? Está sendo pago para quê? Para perder? Está sendo pago para ganhar. É como o jogador de futebol que comemora um gol que ele fez e agradece a Deus. Está celebrando o quê? Estão te pagando para marcar gol. Está fazendo nada mais que a obrigação. Se você não marcar gol, ganhando essa fortuna toda, tem algo de errado. É como ganhar a luta.

O que faria se estivesse no lugar do José Aldo quando o McGregor pegou o cinturão dele na coletiva?

Ele está abusando. Eu já tinha mandado a mão na cara dele, mas acho que alguém da promoção falou que se eles brigarem os dois seriam banidos. Teve aquela do Jon Jones com o Cormier, e os caras não querem que aconteça de novo, devem ter falado que iam expulsar eles. Devem ter ameaçado o Aldo de fazer alguma coisa assim, senão ele tinha metido a mão na cara, ia esperar ele no estacionamento, porque o Aldo é bicho solto, casca grossa do caramba.

Qual seu palpite pra essa luta?

McGregor é talentoso, gosto do cara, mas caiu muito no meu conceito nessas conferências que fizeram. O outro é bicho do mato, casca grossa, campeão há anos, não perde por causa disso, sabe o que está fazendo. O Conor é o novo. Dizem que é mais talentoso, é melhor, o do momento, mas do jeito que está falando caiu muito no meu conceito. Não gosto disso. Perdi o respeito.

José Aldo e Cono Mcgregor, Coletiva UFC189 (Foto: Getty Images)
Royce disse ter perdido o respeito por Conor McGregor (Foto: Getty Images)

Já que você falou do Jon Jones, ele também passou por uma situação de doping, mas por cocaína. Qual a sua opinião sobre isso?

Mesma coisa, o cara é humano, errou, estava numa festa. O cara caiu na festa. Ele é humano. Experimentou. É difícil. Eu não bebo, nunca bebi, nunca fumei. Os caras às vezes esquecem que eles são exemplos para a garotada que está lá fora.

Teve alguma luta que não fez e gostaria de ter feito?

O Mike Tyson foi um. Chamamos, ele quis, mas o pessoal ao redor dele não deixou. Essa era a luta do momento, ia acabar com o boxe na época. É a luta que nós chamamos, ele concordou, mas o pessoal dele falou que não. Nunca conversei com ele na época, mas agora conversamos, ele é fã meu pra caramba e já me falou: “Cara, ainda bem que não lutei contigo”.

Acha que um lutador que faça os mesmos treinos do mesmo jeito que você fazia quando lutava, focando quase que 100% no jiu-jítsu, pode se tornar um campeão atualmente?

Claro que sim. O que o Picasso pintou antigamente seria muito mais fácil hoje porque a tecnologia ajuda? Hoje o Messi é muito melhor que o Pelé porque o tênis dele, o treinamento, a comida, é tudo mais atualizado? A tecnologia ajuda muito mais o Messi? Bota o Messi para fazer o que o Pelé fez naquela época. Tira tudo que ele tem hoje e bota naquela época para ver se ele seria o mesmo. Tira a tecnologia, o sapato, a comida, bota naquela época lá. Pega o Chris Weidman, bota para lutar com um cara de 220kg. Aí você me diz. Difícil de comparar, cara. Não pode tirar o crédito do que o cara fez no passado, dizer que hoje não duraria. O que o Muhammad Ali fez naquela época, não duraria um round hoje. Bota o cara de hoje para lutar na regra antiga, luva pequena de boxe, com 15 rounds ao invés de 12. Luvas de 12 onças, hoje são 16. Difícil comparar. Não é dizer que o que fez antes não valia nada porque hoje a tecnologia é muito mais avançada. Pega o vagabundo de hoje e bota para pintar como o Picasso, como ele pintou, sem a tecnologia de hoje. Quero ver.

Royce Grace (Foto: Raphael Marinho)
Royce Gracie relembrou lutas importantes da sua carreira (Foto: Raphael Marinho)

Qual a luta que mais marcou a sua carreira?

Primeiro UFC, com três lutas numa noite. Não, para. Segundo UFC, quatro lutas numa noite. Não, terceiro UFC, contra o Kimo com uma farmácia no corpo. Não, tem melhor, UFC 4, final com Dan Severn, depois de batermos em dois caras, ele com 118kg, e eu com 80kg. Não, tem uma melhor ainda. Sakuraba, 1h45 com ele no ringue. Esquece essa também. Akebono, 1,83m, pouco mais alto que eu, mas com 220kg. É difícil escolher uma.

Se arrepende de alguma coisa?

Faria tudo de novo, exatamente igual, não mudaria nada, inclusive nas derrotas. Aconteceu porque era para acontecer assim. Não mudo nada.

Qual o conselho que deixaria para os lutadores atuais?

O que mais tem é talento lá fora. Talento e casca grossa. O que falta é disciplina. Tem que ter disciplina. Comentário comum é que o cara é muito talentoso no futebol, no golfe, mas se só tiver talento não fica lá em cima muito tempo. O casca grossa e o talento um dia acabam. Tem que ter disciplina para levantar e praticar.