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  • 2 jun 2015

Postura de Hamilton no GP do Canadá pode determinar rumo do campeonato

Qual Lewis Hamilton irá iniciar a disputa do GP do Canadá, sexta-feira, no Circuito Gilles Villeneuve, em Montreal? O que seus fãs e todos na F1 estão vendo este ano desde a abertura do Mundial, na Austrália, sereno, veloz, constante, líder do campeonato, apesar da vitória do companheiro de Mercedes, Nico Rosberg, nas duas últimas etapas, ou o que se apresentou na mesma prova no ano passado?

Em 2014, desestabilizado com os acontecimentos no GP de Mônaco, quando perdeu para o companheiro de Mercedes, Nico Rosberg, a liderança na classificação, Hamilton abandonou a etapa de Montreal. Seu descontrole emocional ficou evidente ao não se ater à temperatura dos freios, apesar de alertado pela equipe. Permaneceu muitas voltas próximos demais de Rosberg a fim de tentar ultrapassá-lo e possivelmente ganhar a corrida.

Agora, o atual campeão do mundo desembarca no Canadá depois de viver experiência semelhante a de 2014 no Circuito de Monte Carlo. Nas ruas do Principado, este ano, Hamilton não foi ameaçado em nenhum dia da competição. Largou na pole position e tinha 25 segundos de vantagem para Rosberg, na 63.ª volta, uma antes de o safetty car entrar na pista, por causa do sério acidente de Max Verstappen, da STR.

O grupo técnico da Mercedes orientou Hamilton, no rádio, para permanecer na pista, ele questionou se, de fato, seria bom, então o mandaram entrar nos boxes para substituir os pneus enquanto Rosberg e Sebastian Vettel, da Ferrari, não. Resultado: Hamilton acabou em terceiro, atrás dos dois. Sua expressão no pódio era de um homem devastado com a perda da vitória certa.

Em 2014, o inglês da Mercedes acusou publicamente Rosberg de ter provocado a saída de pista na curva Mirabeau, na definição do grid, com o objetivo de gerar a bandeira amarela e os pilotos que vinham atrás, como ele, não poderem melhorar seus tempos. A manobra permitiu a Rosberg largar na pole position, vencer a corrida e se tornar o novo líder do Mundial.

Este ano o filho de Keke Rosberg não recorreu a comportamento escuso, como a maioria na F1 acredita ter sido o caso em 2014, mas de novo terminou na frente do maior adversário na luta pelo título, embora sem assumir o primeiro lugar na classificação. Hamilton continua na liderança do campeonato, com 126 pontos, 10 a mais do companheiro. Mas ficou estampado nas suas reações no pódio e depois nas entrevistas que a perda da vitória para o companheiro, em Mônaco, o atingiu desproporcionalmente.

Por tudo isso que a primeira pergunta que surge do novo imbróglio da etapa do Principado é: quem acompanha a F1 assistirá no Circuito Gilles Villeneuve o Hamilton eficaz deste ano ou o que expôs sua imaturidade emocional, em 2014, e só foi recuperar o primeiro lugar do Mundial no GP de Cingapura, em setembro, oito corridas mais tarde?

Nico Rosberg, à frente de Nico Rosberg e Lewis Hamilton no fim do GP de Mônaco (Foto: Gero Breloer / AP)
Nico Rosberg, à frente de Sebastian Vettel e Lewis Hamilton no fim do GP de Mônaco (Foto: Gero Breloer / AP)

Título trouxe serenidade

O Hamilton de 2015 é diferente do de 2014. Em tudo. Como piloto e, principalmente, no modo de vida.

“O fato de vencer o campeonato o tornou ainda mais rápido e sem os erros de antes. Tirou um peso das suas costas. Em condições normais e com o nosso carro, Lewis é quase invencível, hoje.” A afirmação é de Niki Lauda, sócio e diretor da escuderia Mercedes.

De fato, a naturalidade com que vem obtendo pole positions e vitórias não lembra o piloto por vezes instável de 2014, apesar do seu imenso talento. Este ano, por exemplo, conquistou cinco das seis pole positions disputadas, ganhou em três ocasiões, Austrália, China e Bahrein, foi segundo em duas, Malásia e Espanha, e terceiro em Mônaco. Perdeu a disputa para Rosberg, sem que fatores externos interferissem, como no Principado, apenas na Espanha, quando o alemão foi mais eficiente a maior parte do tempo.

Mas a forma como Hamilton reagiu na pista em Mônaco, ao impor uma superioridade inegável, ao longo de toda a disputa, revelou que a perda da pole e vitória para Rosberg no Circuito da Catalunha, em Barcelona, não o havia afetado.

Lewis Hamilton celebra pole position no GP de Mônaco (Foto: Reuters)
Lewis Hamilton foi pole position e dominou boa parte do GP de Mônaco (Foto: Reuters)

O mesmo não se pode garantir que acontecerá no fim de semana em Montreal depois de Hamilton ver o companheiro obter a segunda vitória seguida, em Mônaco, e ficar apenas dez pontos atrás na classificação. Pior: por um erro da Mercedes, com sua conivência.

A prova no Circuito Gilles Villeneuve será a sétima do calendário. Restarão, na sequência, ainda, 12 para o encerramento da temporada. Se Hamilton ratificar a maturidade demonstrada até agora este ano na pista, a tendência é essa diferença de dez pontos para Rosberg ser ampliada. É mais talentoso que o esforçado Rosberg.

Mas se o inglês se deixar abater, voltar a exibir sua inconstância, a luta pelo título pode ganhar o contorno da apresentada no ano passado, quando o alemão se aproveitou inteligentemente do descompasso emocional do concorrente para quase ser campeão, no que teria muito mérito.

O andamento das 70 voltas no traçado de 4.361 metros que acompanha o perímetro da Ilha de Notre Dame, no rio São Lorenço, em Montreal, deverá responder à importante pergunta. É provável que a próxima fase do Mundial tenha relação estreita com a performance de Hamilton do GP do Canadá.

Lewis Hamilton cumprimenta Nico Rosberg, enquanto Sebastian Vettel celebra pódio no GP de Mônaco (Foto: AP)
Lewis Hamilton cumprimenta Nico Rosberg, enquanto Sebastian Vettel celebra pódio no GP de Mônaco (Foto: AP)

Novos tempos

O Hamilton introspectivo, concentrado, de raras palavras com a imprensa deste ano contrasta com o novo estilo de vida assumido depois da separação da namorada, a cantora havaiana Nicole Scherzinger, em fevereiro, com quem mantinha relação, por vezes beligerante, há sete anos.

O inglês de 30 anos radicalizou. Abandonou a convivência com uma mulher madura, de 36 anos de idade, como Nicole, para dividir seu tempo com a modelo, empresária e socialite norte-americana também Kendall Jenner, de apenas 19 anos.

Ela e duas amigas inseparáveis, modelos da mesma forma, foram convidadas de Hamilton nos dias do GP de Mônaco. Se deslocavam pelo reduzido paddock como se estivessem nas passarelas. Todos aproveitaram o iate do piloto estacionado no porto e, depois do desgaste pela derrota, voaram juntos no jato Global 605 de Hamilton para Los Angeles, onde vive Kindall.

Até chegar na F1, em 2007, pela McLaren, e demonstrar já na estreia ser um supertalento, a ponto de quase ter conquistado o título, Hamilton teve condição de vida bastante limitada. “Eu dormia num sofá na sala no nosso apartamento em Stevenage”, costumava dizer o inglês. A cidade, ao Norte de Londres, é incorporada a sua área urbana. O pai se separou da mãe quando ele tinha dois anos de idade, apenas.

A renovação do contrato com a Mercedes, anunciada em Mônaco, garante a Hamilton, segundo se fala no paddock, um rendimento de 30 milhões de euros, ou R$ 105 milhões, por temporada, mais prêmios por conquista, valor bem semelhante ao que a Honda investe em Fernando Alonso, na McLaren, e a Ferrari em Sebastian Vettel.

Ao tomar a inédita iniciativa de romper com Nicole Scherzinger, Hamilton passou a viver o que talvez sempre desejou e não podia. E a água represada tende a vazar em maior intensidade quando liberada. Esse parece ser o momento de Hamilton que, de repente, usa roupas da marca Louis Vuitton, e corrente de ouro maciço no pescoço de dimensões generosas.

Lewis Hamilton domina treinos livres da quinta-feira, mas acredita que Mercedes ainda pode melhorar (Foto: Reuters)
Lewis Hamilton ainda é líder do campeonato, mas companheiro Rosberg venceu as duas últimas (Foto: Reuters)

O seu new look se completa com as várias pulseiras, brinco, anel e relógio necessariamente capazes de emitir brilho, para combinar com a pesada corrente, além das tatuagens em boa parte do corpo e usar cabelos e óculos que mais o aproximam de um pop star em vez de um piloto de F1.

A coleção de carros com que desfila nas ruas de Mônaco, onde reside, reforça essa imagem. Hamilton costuma percorrer a elegante Avenue Princesse Grace, ao lado do Mediterrâneo, com sua Maserati Gran Cabrio MC branca, a Mercedes SLS AMG vermelha, ambas conversíveis, ou a McLaren MP4/12C bordô, mesma cor do seu jato executivo transcontinental, dentre outros modelos exclusivos.

O comportamento de Hamilton dentro dos autódromo é também outro. Raramente sorri. Pessoas a quem normalmente fazia algum tipo de saudação ao se cruzarem no paddock retratam não mais tê-las. É como se todos que o cercam fossem responsáveis pelas severas dificuldades que experimentou na infância e juventude. Mais: a ostentação seria uma forma de dizer que a realidade, hoje, é oposta àquela.

INFO - Horários GP do Canadá F1 (Foto: infoesporte)
INFO - Circuito GP do Canadá F1 (Foto: infoesporte)

Seja como for, a competência rara de Hamilton é a responsável por reverter completamente o rumo da sua vida e da família. Com o pai, Anthony, Hamilton mantém hoje uma relação apenas fraterna. Acabou estremecida, no início de 2010, depois de o piloto agradecê-lo por tudo o que fez, mas não mais iria gerenciar sua carreira. Motivo: ficava com 50% do que o filho ganhava.

É grande a empatia de Hamilton com o GP do Canadá. “Não há como esquecer o lugar onde você conquista a primeira vitória e a primeira pole position”, diz o piloto. Em 2007, na estreia na F1, pela McLaren, ratificou lá sua extraordinária capacidade profissional. Venceria ainda em 2010 e 2012, bem como estabeleceria duas outras poles, em 2008 e 2010, sempre com McLaren. Hamilton está na Mercedes desde 2013. Seu melhor resultado com o time alemão foi o terceiro lugar em 2013.

O primeiro treino livre do GP do Canadá, sexta-feira, começará às 11 horas, horário de Brasília. Não há, por enquanto, previsão de chuva, mas a temperatura deverá ser baixa todos os dias, entre 12 e 17 graus, o que pode fazer com que os pilotos tenham, como em Mônaco, dificuldades para aquecer os pneus supermacios e macios da Pirelli.