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  • 25 abr 2015

Os verdadeiros heróis da Marvel

Em Vingadores: Era de Ultron, o industrial e bilionário Tony Stark (Robert Downey Jr.) se aproveita de uma tecnologia da sinistra organização Hydra para criar um robô dotado de inteligência colossal cujo propósito é evitar que a humanidade ceda a seus impulsos de destruir o planeta e a si mesma. Como todos os grandes planos, claro, o de Tony dá catastroficamente errado: Ultron conclui que a única maneira de cumprir sua missão é destruindo a própria humanidade. As projeções indicam que este segundo Vingadores deve ultrapassar a bilheteria estratosférica do primeiro, que chegou a 1,5 bilhão de dólares — a terceira maior da história, atrás de Avatar e Titanic. Em entrevistas exclusivas a VEJA, Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, explica a parceria da marca com a Disney e conta como ela se tornou um gigante do entretenimento, enquanto Joss Whedon, o diretor dos dois Vingadores, conta que muitas de suas opiniões coincidem com as de Ultron, e conta como é trabalhar nessa escala de produção e expectativa.

Entrevista com Joss Whedon, diretor de Vingadores: Era de Ultron:

Ultron, o robô/inteligência sintética do novo Vingadores, é um vilão sincero, que acredita estar fazendo o bem com seu plano de destruição da humanidade. Acho que há pouca gente no mundo que se propõe fazer o mal. Se um vilão não tem um ponto de vista sobre o mundo, o que se tem num filme não é um conflito – é uma briga, e só. Ademais, devo dizer que eu não apenas compreendo Ultron como concordo com muito do que ele tem a dizer.

A certa altura, Ultron diz a Visão, a nova inteligência que ele criou, que Visão é intoleravelmente ingênuo por defender a humanidade, e que nós estamos condenados. É a esse ponto de vista que você se refere quando diz que concorda com Ultron? A humanidade, acho eu, vai destruir ou a si mesma ou a planeta – ou, melhor dizendo, à capacidade do planeta de sustentar nossa existência nele. É necessário criar a ideia de esperança, e é por isso que eu trabalho com ficção. Mas não compartilho dessa esperança. Não aprovo os métodos de Ultron mas, sim, sou um tantinho pessimista acerca da raça humana.

Destruirmos-nos a nós mesmos e destruir o planeta não são duas coisas moralmente diversas? Destruirmos-nos a nós mesmos implica violência e agressão direta, enquanto destruir o planeta talvez tenha a ver mais com inconsequência e irresponsabilidade do que propriamente com perversidade. Eu pessoalmente não faço essa distinção: o tipo de raciocínio que gera guerra e opressão é, a meu ver, o mesmo tipo de raciocínio que vê com indiferença o desperdício e a destruição do patrimônio que se tem. É um raciocínio que não alcança o futuro e que despreza as consequências das atitudes que se toma.

Imagino, porém, que seu propósito em Vingadores: Era de Ultron não seja pôr a plateia de joelhos ou lançá-la no desespero desse futuro sombrio que talvez nos espere. Como um cineasta encarregado do que provavelmente será uma das maiores bilheterias do ano deve equilibrar entretenimento, visão de mundo e responsabilidade fiscal? Tendo dito tudo isso que já disse aqui, esclareço que Ultron não é o porta-voz do filme; trata-se de uma história sobre pessoas, por que nós as amamos e por que elas amam umas às outras e como podem ajudar-se mutuamente. Essas são coisas em que acredito. Me preocupo conosco, mas amo muito as pessoas e conheço pessoalmente muita gente que dedica suas vidas a tornar este um mundo melhor. E, sim, Vingadores é um filme de verão e tem que ser divertido. Mas é fato que nos dias de hoje é difícil fazer um filme contemporâneo de super-heróis fingindo que não há consequências em ter tanto poder quanto eles têm – algo de que esteVingadores trata muito especificamente. Por outro lado, não estou nessa para passar sermão no público. Não são as opiniões de Ultron que o tornam interessante: é a maneira como ele as expressa, a dor que elas causam a ele e o quão engraçado ele pode ser em toda a sua seriedade.

Há uma maneira muito simples de mensurar o êxito de um filme como Vingadores, que é a bilheteria. Mas conhecendo sua carreira de Buffy — A Caça-Vampiros até aqui, eu apostaria que você mesmo usa outras réguas — ou mais réguas — para medir os méritos dos seus doisVingadores. Vou confessar que gosto muito dos dois. Definitivamente, não estou satisfeito com eles: vejo falhas, defeitos e concessões e sempre vai ser assim, porque sou um sujeito meio deprimido mesmo. Mas algo nos dois filmes faz com que a plateia responda a eles. Nesse sentido, fico feliz com os defeitos e falhas, porque eles significam que não é a um produto que a plateia está reagindo, e sim a uma criação que de alguma maneira preenche algo de que ela necessitava. Essa sensação é um privilégio: os dois Vingadores, e Era de Ultron em particular, são trabalhos tão pessoais para mim quanto qualquer outro que eu tenha feito na minha carreira. É um tremendo luxo fazer algo que é ao mesmo tempo um arrasa-quarteirão e um filminho de arte estranho sobre as minhas emoções. Ver essas duas coisas se combinarem em um projeto e então testemunhar a acolhida dele pela plateia é o melhor tipo de sucesso que existe.

Nesses termos, sua carreira deu um salto quântico. Você já havia tido muito sucesso com Buffy e Firefly antes, mas era sucesso numa escala que uma pessoa comum pode compreender. Agora, é nessa escala Marvel de senhores do universo. O que muda quando se está nesse patamar? Essas duas partes da minha carreira não parecem diferentes entre si para mim. Minha vida não mudou, não troquei de amigos, não ganhei nem me dei carta branca, e fazer Agentes da S.H.I.E.L.D. foi tão difícil quanto fazer qualquer outra série que eu tenha feito antes para qualquer outra rede. Quando eu estava tocando Buffy sem grana nenhuma, na minha cabeça eu estava fazendo o mesmo que faço agora: eu queria que cada emoção ficasse registrada em cada cena da maneira mais intensa possível e que cada momento fosse icônico, a escala de produção era uma loucura, eu estava sempre exausto. Nada disso, rigorosamente nada, mudou. Pode ser que em breve, com mais tempo livre, eu comece a ver uma paisagem de oportunidades que não via antes, o que no fundo é só o que qualquer artista deseja. Mas tento sempre me lembrar do que eu muito sensatamente disse a mim mesmo alguns anos atrás, quando comecei a me dar conta de quão grande Vingadores era: é só mais uma história.

Até o primeiro Vingadores, tudo que você havia feito era cria sua do começo ao fim — seu argumento, seu roteiro, sua escolha de atores, seu estilo visual. Vingadores chegou com um universo próprio que tinha de ser respeitado e atores escolhidos por outros diretores em filmes anteriores. Como foi sua adaptação a esses novos parâmetros? Entrei no projeto com a ressalva pessoal de que, se eu descobrisse que não era o sujeito certo para o trabalho, não deveria fazê-lo. Honestamente? Uma série é cria sua até o primeiro episódio. A partir dele, o elenco já está ali, com a cara na tela, a trama já foi apresentada e lançada — tudo está no lugar em que está, por bem ou por mal, e é com aquilo ali que você vai ter de seguir. Então qual a diferença? E ter tantos atores excelentes já comprometidos com o filme só deixou a minha vida mais fácil. Há restrições, claro, em trabalhar dentro do universo da Marvel. Mas, de novo, descobri que isso pode ser um bônus. Quando você sabe quais as coisas que obrigatoriamente terá de oferecer, pode se concentrar naquelas outras coisas que você queroferecer.

A Marvel tem a reputação de ser extremamente zelosa do seu universo e dos seus personagens. Trabalhar dentro desses limites pode ser considerado uma dificuldade adicional? É uma faca de dois gumes. Não há ninguém mais trabalhador, mais concentrado e com mais conhecimento do que se deve criar do que Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios; e Jeremy Latcham, que produziu ambosVingadores, é o melhor produtor com que já trabalhei na vida. Sempre chega a hora em que nós batemos de frente, porque Kevin é como eu, um sujeito nascido para se preocupar e que gosta de pôr a mão na massa — o que às vezes ajuda muito e outras vezes é extremamente intrusivo. Mas esses são os ossos do ofício. Não há chefe de estúdio no mundo com que isso não vá acontecer; o que difere é o grau de dificuldade em chegar a um acordo. O caso é que tenho um respeito enorme por Kevin e por Jeremy como artistas por direito próprio, e tenho imenso orgulho do que construímos juntos — ou acho que vou ter, quando estiver menos exausto do que estou neste momento. Esse propósito comum, de fazer o melhor filme possível, é o que de mais precioso um estúdio pode proporcionar. Já o pior que um estúdio pode fazer é vir com aquelas conversas de “não sei não, acho que isto aqui deveria ser mais um thriller do que uma aventura”, ou “quem sabe se agente mudasse isto aqui”. Definitivamente não é assim que a Marvel funciona: todo mundo lá sabe muito bem o que quer. E num filme com as pressões deVingadores, em que o processo todo pode ficar meio caótico ou sobressaltado, é mil vezes melhor trabalhar com um estúdio que sabe a que veio, sem cinco produtores diferentes mandando bilhetinhos desencontrados. Já trabalhei nessas condições, e isso, sim, é tóxico.

Entrevista com Kevin Feige, presidente da Marvel Studios:

Quando foi que vocês na Marvel se deram conta de que a dominação mundial era uma possibilidade real? As duas primeiras semanas de exibição do primeiro Vingadores foram uma experiência reveladora. Sempre temos grandes esperanças para nossos filmes, temos orgulho deles e torcemos para que eles consigam comunicar-se com uma plateia o mais ampla possível, mas ver isso acontecer naquela escala foi uma surpresa maravilhosa e um testamento ao trabalho muito duro de todas as pessoas envolvidas com os filmes da Marvel. Mas, claro, o sucesso do primeiroVingadoresestabeleceu um novo patamar de expectativa — e de pressão.

Consta que a Marvel tem uma escala de lançamentos que alcança até o ano de 2028. Essa cultura do planejamento a longuíssimo prazo é uma das chaves para o sucesso sem precedentes que a marca tem obtido? Tenho certeza de que poder mapear a forma como todas as histórias dos personagens da Marvel se interconectam e avançam, e também localizar as pessoas certas para dar corpo a cada uma dessas histórias, dos atores aos diretores, é uma parte importante do êxito da Marvel. Mas, justiça seja feita, levamos uma vantagem sobre outros estúdios que gostariam de poder embarcar no mesmo tipo de planejamento: como temos um manancial praticamente inesgotável de matéria-prima nos quadrinhos da Marvel e sabemos quais histórias queremos contar, podemos nos dar ao luxo de elaborar uma escala de lançamentos até 2019 — essa é a nossa data oficial, embora evidentemente tenhamos sonhos que vão bem além dela. Cinco anos de antecedência, na indústria do entretenimento, representam um capital inédito.

Quando a Disney comprou a Marvel, em 2010, as ações da Disney caíram, porque o entendimento do mercado é que, àquela altura, com os X-Men e o Quarteto Fantástico na Fox e o Homem-Aranha na Sony, à Marvel só restavam personagens de segundo escalão para explorar. Passados cinco anos, é seguro dizer que vocês provaram à indústria que isso, o personagem de segunda linha, não existe. Foi uma batalha demonstrar isso à Disney? Essa é uma avaliação absolutamente correta: mesmo antes da compra da Marvel pela Disney, circulava essa versão dos fatos na indústria, de que o melhor do patrimônio da Marvel já saíra das mãos dela. Nós mesmos na Marvel nunca endossamos essa visão: não acreditamos na divisão de personagens em escalões e estávamos seguros de que muitos dos que ainda estavam sob nosso controle tinham imenso potencial. Quando a compra aconteceu, Homem de Ferro 2 estava para ser lançado e Thor e Capitão América já estavam em estágio avançado de produção; a Disney não nos deu outra coisa que não apoio.

 

A Disney é a pioneira e uma das mais peritas executoras da prática de explorar um mesmo produto em várias mídias e plataformas e extrair dele todas as oportunidades possíveis de marketing. Imagino que, para a Marvel, essa habilidade tenha representado um impulso decisivo.Essa é uma das principais razões pelas quais a Marvel despertou o interesse da Disney: as oportunidades de sinergia oferecidas pelos nossos conteúdos. Não é acaso que o primeiro filme da Marvel para o qual a Disney pôs toda sua artilharia em campo, Vingadores, tenha se tornado um sucesso tão tremendo, ou que cada novo filme do Thor, Capitão América e por aí vai supere os anteriores. A Disney faz isso melhor do que ninguém, de forma que ao mesmo tempo em que sabemos estar só no começo de uma estratégia que ainda deve crescer muito, sentimos também já estar numa espécie de auge.

Como são divididas as decisões criativas? Você tem fama de ser extremamente cioso de tudo que se refere à Marvel, e não é incomum que uma empresa-mãe se sinta desconfortável com esse zelo da parte de uma empresa afiliada. Na verdade, nunca tivemos a sensação de ser duas empresas, mas uma apenas, seguindo toda numa mesma direção — o que é exatamente o que nos disse na ocasião da compra o pessoal da Pixar, que por sua vez foi adquirida pela Disney alguns anos antes de nós.

Você é presidente de uma empresa pertencente à Disney mas atua como produtor de títulos da Marvel junto a outros estúdios, caso do Homem-Aranha da Sony. Não é como ser um sujeito só, porém com duas cabeças? É uma sensação deliciosa poder participar do projeto do Homem-Aranha e incorporar o personagem a esse universo Marvel em desdobramento. Mas não, não tenho de me dividir em dois. Na Marvel, funcionamos com um banco de cérebros formado por executivos e produtores. Alguns de nós estão juntos já há mais de dez anos e, seja qual for o projeto em andamento, temos sempre um time de primeira linha em campo para tocar as coisas.

Esse banco de cérebros é o mesmo conselho criativo integrado por você, Louis D’Esposito, Joe Quesada e outros? Trata-se de duas entidades separadas: o conselho criativo é essencial para a elaboração de histórias, tramas, desenvolvimento de personagens e tudo que se refira ao rumo criativo de cada projeto, enquanto o banco de cérebros é o time que se encarrega da execução desses projetos, desde a escolha dos atores e da equipe até o produto final que será entregue aos cinemas.

O diretor dos dois Vingadores, Joss Whedon, mencionou que às vezes vocês realmente batem cabeças, mas que em nenhum momento trabalha-se como no clássico “filme de comitê” de Hollywood, aquele em que produtores variados e não necessariamente muito informados ou brilhantes não param de dar palpites. Uma parte vital de toda colaboração criativa são as brigas e discussões. O que é contra-producente é quando as brigas e discussões se baseiam em ego, disputas de poder, puxadas de tapete e congêneres. Posso garantir a você que essas coisas não são do interesse das pessoas que trabalham conosco. Num projeto da Marvel, trabalham as pessoas cujo interesse é fazer o melhor filme possível. Essas brigas, as que levam a um filme melhor, temos todos os dias.

Do ponto de vista de negócios, parece altamente salutar formar parcerias com o maior número possível de colaboradores — com a Sony em Homem-Aranha, a rede ABC em Agentes da S.H.I.E.L.D. e Agente Carter, o Netflix com Demolidor e a batelada de séries que se seguirão a ele, além de Capitão América,Thor, Homem de Ferro, Vingadores, Guardiões da Galáxia e logoHomem-Formiga e Doutor Estranho na Disney — isso só para ficar na lista básica. Mas como manter todos esses malabares no ar sem causar um desastre? A televisão é um departamento distinto dentro da Marvel,a cargo de Jeph Loeb. Mas toda a integração necessária fica a cargo desse banco de cérebros que mencionei, e que é, na minha opinião, uma das nossas melhores conquistas. O público não nos conhece, porque os integrantes desse grupo dão no máximo uma ou duas entrevistas por ano. O resto do tempo, estamos no set, nas ilhas de edição, nas rodas de roteiro, em todo e qualquer lugar em que nosso trabalho realmente faça diferença.

A Marvel nem sempre teve esse cacife e respeito como produtora de filmes. Elektra e Demolidor — O Homem Sem Medo, por exemplo, foram fiascos tanto de crítica quanto de público. Como vocês chegaram a essa fórmula, por assim dizer, que dá tão certo hoje? A quem se deve agradar primeiro, aos aficionados ou à plateia em geral? Nossos filmes são tão grandes que, por necessidade, têm de agradar a todo mundo — o sujeito que coleciona todas as edições de todos os quadrinhos e também o espectador que nem sabe direito que personagem é aquele que está no título do filme. Eu fui sempre um cinemaníaco: cresci gostando de Star Wars, dos Super-Homem de Richard Donner, e sempre tive para mim que esses eram os filmes que gostaria de fazer. Pois entrei nesta indústria trabalhando com a produtora Lauren Schuler Donner e o diretor Bryan Singer no primeiro X-Men, e nos anos seguintes tive o privilégio de trabalhar com quase todos os estúdios fazendo X-Men, Homem-Aranha,Hulk e Quarteto Fantástico, além de Elektra e Demolidor — O Homem Sem Medo, e de observar todas as decisões que foram tomadas nesses projetos — algumas boas, outras não muito. Note que eu disse “observar”: quando, entre 2005 e 2006, conseguimos reunir financiamento para nos tornamos nós próprios um estúdio, agarrei a chance de usar essa experiência acumulada para que fosse a Marvel a ficar com as decisões e dar a palavra final sobre todos os seus filmes.

Para efeito de correção, eu deveria dizer que falar em “fórmula” é inadequado. Não existe “fórmula” na indústria do entretenimento, ou nunca um estúdio teria um fracasso. Não existe mesmo, e é por isso que estamos aqui todo dia, ralando. Não contamos com nada, nunca: não imaginamos que porque um filme deu certo o seguinte também vai dar, não pressupomos que os fãs dos quadrinhos vão reagir desta ou daquela maneira, não saímos presumindo que sabemos antecipadamente o que vai agradar. Em cada filme, começamos tudo de novo como se fosse do zero.

Houve muito temor em torno de Guardiões da Galáxia por esse ser um quadrinho de “nicho”, muito menos conhecido do que, digamos, Homem de Ferro ou Capitão América. Você sente ainda essa trepidação quando a Marvel embarca em território não mapeado? Todo filme é, a rigor, território não mapeado — inclusive este segundo Vingadores. Mas é claro que em um filme em que todos os elementos são novos, como Guardiões ou como Homem-Formiga, que estreia agora em julho, ficamos mais apreensivos. Mas também mais desafiados, mais eletrizados. Lembre que coisas que hoje são dadas como certas ou óbvias já foram imensas ousadias para nós no passado. Por exemplo, quando começamos a produzir filmes sem um estúdio-parceiro, ou quando colocamos Robert Downey Jr., um ator que estava em desgraça, no papel do Homem de Ferro.

Homem-Formiga é uma escolha inesperada. Fala-se no personagem e as pessoas dizem, “Homem-Formiga, jura???”. Por que vocês decidiram abrir espaço para ele agora? Bom, ele é um personagem muito importante nos quadrinhos; o Homem-Formiga está na capa do primeiríssimo quadrinho dos Vingadores, dos anos 1960. E agora é o momento porque a tecnologia permite que seja. A noção de encolher, de entrar em um outro mundo que não é normalmente visível, já nasceu junto com a ficção científica, mas agora é possível tornar esse mundo absolutamente crível e fotorrealista. Além disso, já ouvimos esse “jura????” antes, muitas vezes — a mais recente delas quando as pessoas comentavam que em Guardiões da Galáxia haveria um guaixinim falante e um homem-árvore, e todo mundo fazia cara de incredulidade. A gente aqui na Marvel adora essa reação.

Vocês inverteram uma lógica clássica e que se tinha como imutável das adaptações de quadrinhos: começava-se apresentando o grupo todo de personagens em um filme e dele saíam os spin-offs, os filmes dedicados a cada personagem em particular. Quando o primeiro Vingadores foi lançado, já havia dois filmes do Homem de Ferro, um de Thor e outro do Capitão América. Impor essa estratégia foi uma briga boa? É uma decisão que não poderia ter sido tomada em nenhum outro estúdio e em nenhum outro momento. Mas nem por um segundo cogitamos seguir a lógica tradicional: tínhamos acabado de reunir um bom financiamento, queríamos ser um estúdio capaz de produzir pelo menos dois grandes filmes por ano e, o mais importante, nos quadrinhos os heróis são apresentados um a um e só então se juntam. Quando eles viram o grupo chamado Vingadores, já eram individualmente conhecidos, amados e cultuados por legiões de fãs. Estávamos confiantes de que o mesmo se daria no cinema — e estávamos certos. Mas claro que tudo poderia ter dado completamente errado. Na verdade, quando começamos a filmar o primeiro Vingadores,Thor e Capitão América ainda nem haviam sido lançados; para piorar, decidimos que o vilão de Vingadores seria Loki, um personagem que ninguém conhecia, porque ele seria apresentado em Thor. Imagine o que poderia ter acontecido se uma só peça dessa engrenagem emperrasse.

Outra coisa, então, em que é preciso ter certeza que se fez a aposta certa: a plateia adorou Tom Hiddleston, que antes ela não conhecia, como Loki; ninguém sabia quem era Chris Hemsworth quando ele virou Thor, e hoje ele é uma potência. Muito do êxito de um filme, portanto, repousa em ter o ator certo no papel correto. Desde o primeiro X-Men, lá atrás, o primeiro mandamento é este: o personagem é rei. O nome dele é que tem de estar em destaque na marquise do cinema. Essa é uma maneira muito liberadora de escolher elenco, porque você não precisa pesar quão grande ou pequena é a popularidade do ator que vai protagonizar o filme; basta que o instinto do nosso banco de cérebros diga que ele é o ator certo para encarnar o personagem, e pronto. Nada contra astros, lógico: Benedict Cumberbatch, um dos atores mais queridos do momento, vai ser nosso Doutor Estranho. Mas não o escolhemos porque ele é um astro, e sim porque ele é bom e tem a personalidade ideal. Dito isso, todos os atores não muito conhecidos que escalamos em nossos filmes hoje são astros.

A terceira leva de filmes da Marvel