ONU ‘preocupada’ com intervenção no Rio

O alto comissário da ONU para os direitos humanos manifestou nesta quarta-feira (7) sua “preocupação” com a decisão do governo brasileiro de entregar o controle da segurança do Rio de Janeiro aos militares, enquanto 900 agentes faziam uma nova operação na comunidade Vila Kennedy.

“Estou preocupado com a recente adoção de um decreto que dá às Forças Armadas a autoridade para combater o crime no estado do Rio de Janeiro e coloca a Polícia sob o comando do Exército”, disse o alto comissário Zeid Ra’ad Al Hussein de Ginebra.

“As Forças Armadas não são especializadas em segurança pública ou investigação”, afirmou.

As declarações foram feitas no mesmo dia em que o Exército voltou à comunidade Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, na terceira operação desde que Temer decretou a intervenção, em fevereiro.

Com o apoio de blindados, helicópteros e equipamentos de engenharia pesada, os militares entraram nesta comunidade para a “estabilização” e “desobstrução de ruas”, informou o comando a cargo da segurança no estado, sem descartar detenções.

No sábado, os militares já estiveram na Vila Kennedy para retirar as barricadas colocadas pelos traficantes nas ruas a fim de obstruir a passagem, mas estas reapareceram pouco depois que o contingente saiu.

Em uma praça da comunidade, onde fica um pequeno mercado, dezenas de soldados fortemente armados chegaram junto com um veículo blindado. E em uma das ruas principais outros militares paravam pessoas que circulavam de moto para controles de identificação, constatou a AFP.

“Quando os militares estão aqui, a situação se tranquiliza. Mas quando vão embora, volta o inferno. O governo deveria ter outras prioridades, como melhorar a educação para que os jovens não vejam o tráfico como a única opção”, diz Rosanne Pinheiro, vendedora de uma banca de jornal de 49 anos.

“Nem me lembro de quantas vezes tive que me esconder porque estava tendo tiroteio”, conta, enquanto mostra uma marca de bala na parede da banca.

– ‘Anistia’ –

Vila Kennedy já teve uma operação em 23 de fevereiro no âmbito do esquema anterior de Garantia da Lei e da Ordem, que desde julho do ano passado enviou 8.500 soldados ao Rio para apoiar as forças policiais.

Nesse caso, mais de 3.200 militares entraram na comunidade e geraram polêmica ao obrigar os moradores a pararem para que tirassem foto de suas carteiras de identidade para verificar se eram buscados pela Justiça. Várias ONGs consideram que com esta medida estavam “fichando” as pessoas.

“Não é ilegal o que fizemos. Ninguém está fichando ninguém nas favelas, não ficamos com as fotos”, disse o interventor, o general Walter Souza Braga Netto, em uma entrevista à GloboNews, assegurando que é uma forma de “economizar” tempo e recursos para detectar possíveis foragidos.

A intervenção da área de segurança do Rio foi ordenada por Temer para deter “a metástase” da violência que começou após os Jogos Olímpicos 2016, principalmente relacionada ao tráfico de drogas.

A medida, sem antecedentes desde o retorno da democracia em 1985, foi criticada por defensores dos direitos humanos, que temem que a população das comunidades venha a sofrer abusos durante as operações.

“Se você observar as operações anteriores, todas as vezes que nós entramos nas favelas não houve praticamente confrontos”, sustentou Braga Netto.

Entretanto, uma lei de outubro estipula que os soldados que cometem crimes conta civis devem ser julgados por tribunais militares.

O alto comissário da ONU rejeitou as declarações feitas recentemente pelo general do Exército, Eduardo Villas Boas, que disse que queria “garantias para poder agir sem o risco de que surja uma nova Comissão da Verdade”, como a que examinou os crimes da ditadura militar (1964-1985).

“Condeno os chamados dos oficiais de alto escalão do Exército para (gozar de) medidas que equivalem, na realidade, a uma anistia preventiva para qualquer tropa que cometa violações de direitos humanos”, afirmou Al Hussein.

 

Fonte: Quidnovi/AFP/IstoÉ