Tucano não aprende a cuspir no ‘burrai’.

22/05/2013  -  07:12

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Partido da So­cial Democra­cia Brasileira (PSDB), funda­do a partir de uma dissidên- ciapaulista do Partido do Movi­mento Democrático Brasileiro (PMDB), foi embalado num berço socialista light, intelec­tualizado e grã-fino do “parti- do-ônibus” (em que sempre tem lugar para mais um) que comandou a resistência de dis­sidentes civis à ditadura mili­tar. É, por isso, um mostrengo disforme, com uma cabeça imensa e pequenos pés de bar­ro, incapazes de suportar a ego- latria da cúpula. Diz-se, com ra­zão, que tem caciques demais e índios de menos. Chefões des­tacam-se circunstancialmen­te: Fernando Henrique na Presi­dência da República, José Serra no repeteco de disputas eleito­rais nacionais, estaduais e mu­nicipais em São Paulo.

 

Agora chegou a vez de Aécio Neves, presidente nacional, ex- govemador bem-sucedido ad­ministrativa e eleitoralmente num Estado importante da Fe­deração, Minas Gerais, sena­dor e pule de dez para tentar tirar da chefia do governo a pre­sidente petista, Dilma Rous- seff. A seu favor conta com boa reputação como gestor em Mi­nas, as vitórias sucessivas para o governo de seu Estado e a aliança bem-sucedida no co­mando da prefeiíura dá capital, Belo Horizonte, com um aliado eventual que pode virar adver­sário na mesma disputa: o go­vernador de Pernambuco, Eduardo Campos, senhor de ba- raço e cutelo do Partido Socia­lista Brasileiro (PSB), herdado do avô, Miguel Arraes.

 

Mas contra ele pesa sua inex­pressiva atuação no Senado em dois anos e meio, em que muito pouco fez ou disse  de prático mesmo, absolutamente nada E há óbices maiores para realizar sua ambição. O partido que pre­side nunca foi nem está unido naluta por esse objetivo. O alia­do Democratas (DEM) desmilinguiu, espremido pela ambi­ção de um antigo militante de peso, o ex-prefeito de São Pau­lo Gilberto Kassab, que levou para o Partido Social Democra­ta (PSD), que fundou, um nú­mero relevante de antigos cor­religionários dispostos a beijar a mão de Dilma.

 

Aécio assumiu o lugar a que não conseguiu chegar há qua­tro anos, quando perdeu a indi­cação para o ex-governador paulista José Serra. Seu avô, Tancredo Neves, ensinou que ninguém tem condições de dis­putar à iPresidéncía se não unir

 

O Estado de origem  e isso ele fez. Mas o mesmo não se pode dizer do PSDB. Aécio chegou prometendo resgatar o legado de Fernando Henrique, o único presidente que o partido teve e que ganhou as duas disputas de que participou no primeiro tur­no. Isso nunca foi levado em conta. Nem o fato de o tucano ter promovido a maior revolu­ção social da História, com o Plano Real, que pôs fim à infla­ção e levou proteína à mesa da massa dos trabalhadores.

 

Isso de nada adiantou para a sonhada permanência do PSDB no poder. Fernando Hen­rique cruzou os braços na cam­panha de 2002, deixando Lula esmigalhar o sonho do tucano José Serra. Este, por sua vez, fez uma campanha como se o tal legado, que agora Aécio quer restaurar, fosse algo de que se envergonhar. Quatro anos depois, Lula reelegeu-se contra o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que chegou a vestir uma camise­ta da Petrobrás para garantir que era mentiroso o boato de que privatizaria a maior estatal brasileira. Com isso passou ao eleitorado a mensagem de que a cúpula tucana tinha a privati­zação de Fernando Henrique na conta de titica. Na disputa contra Dilma, em 2010, Serra continuou cuspindo e pisando íno melhor que o partido fizera.

 

Após 12 anos, tentar reabili­tar a estabilidade, a austerida­de fiscal e a privatização pode ser tarde demais. Até a estabili­dade da moeda, uma conquista da Nação, e não de governo al­gum, parece ser um dado do passado distante, sob a ameaça da volta da inflação sem prejudi­car os artífices desse prenúncio de desastre. Além disso, é inútil: o passado não elegerá Aé­cio. E ele não fala do futuro, que de fato interessa ao eleitor.

 

De tanto perder para Lula, o PSDB resolveu reagir a esse des­tino, que parece manifesto, imi­tando o que o maior adversário faz. Alckmin sugeriu que Aécio repita as caravanas da cidada­nia do petista-mor como estra­tégia eleitoral. A intenção é ma­ravilhosa: há muito tempo os tucanos precisam mesmo de um banho de povo. A prática pode não ser, contudo, eficaz. Não basta visitar alguém para conhecê-lo bem. Como dizia um sábio conterrâneo de Tan­credo e Aécio, o coronel Fran­cisco Cambraia de Campos, Chichico Cambraia, de Olivei­ra, o bom político se conhece na cuspida no “burrai”. Ou sej a, tem de entrar na casa do elei­tor, sentar-se à beira do fogo, tomar um café demorado até es­friar e cuspir no borralho. Quanto mais cusparadas, me­lhor! Não basta o candidato se fazer

 

Luiz Inácio Lula da Silva vol­tou de suas caravanas conheci­do e conhecedor do Brasil. Elas lhe permitiram aprender com suas derrotas seguidas, uma pa­ra Fernando Collor e duas para Fernando Henrique. Os tucanos não têm demonstrado a mesma capacidade. Talvez fos­se menos difícil convencer o adversário-mor a disputar a Presi­dência pelo PSDB do que tirar proveito das estratégias contra ele próprio e sua afilhada. Ora, díreís, ísso é impossível! E é. Mas quem garante ser mais possível convencer o cacique José Serra a se empenhar para valer na campanha de Aécio, que nada fez por ele na disputa contra Dilma? Os sinais de má vontade que Serra tem dado de público deverão repetir-se na campanha.

 

Pois o paulista atri­bui em parte sua derrota ao de­sinteresse do mineiro em 2010. Não deixa de ter razão. Mas não tirará proveito dela, pois seu fu­turo depende do êxito do ou­tro. E se a economia não derre­ter, Dilma se reelegerá com faci­lidade, restando aos tucanos pa­rodiar o mantra dos metalúrgi­cos do ABC, liderados por Lula, nos anos 70 e 80. Eles diziam: “O povo unido jamais será ven­cido”. E os tucanos entoarão: “O PSDB desunido será sem­pre vencido”.

 

POR José Neumanne

Enviado por:   22/05/2013 - 07:12