Marcio Malard; 70 anos dançando com o violoncelo

29/07/2011  -  20:20

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Por Sheila Aragão

O que diferencia UM músico de O músico? Pra mim, é a relação que o artista trava com o instrumento fazendo com que as almas se fundam. No caso do violoncelo este encontro de almas é mais precioso ainda.

O instrumento, que veio ao mundo no século XVI, chegou praticamente com a alma humana. A voz do cello é a que mais se aproxima da voz do homem. E como todas as cordas, percutidas (piano), beliscadas (guitarras), ou friccionadas (violino, viola, contra baixo, ..), tem alma, então...

A primeira vez que vi Marcio Malard, no palco, ao vivo, senti algo diferente. Aquele músico tinha uma relação apaixonante com o violoncelo. Dançava, como quem conduz uma mulher com maestria pelo salão. Uma paixão, daquelas que Deus tocou para ser levada a vida inteira.

Alguns anos antes 1982, tinha presenciado na casa de um amigo - Paulo Grilo, em Brasilia, um momento único entre um menino - , que acabara de ganhar o 1º Prémio e Medalha de Ouro no Concurso Tchaikovsky, em Moscou -  e um violoncelo. O menino, o hoje mundialmente conhecido Antonio Menezes, tocava relaxado no sofá e me apresentava uma relação nova com este instrumento apaixonante, tão clássico e ao mesmo tempo tão popular. O cello de Menezes era mais um “amigo” a conversar na sala. A partir daí, passei a ver o violoncelo como instrumento capaz de representar um artista num diálogo cênico.

Logo o tempo me comprovaria que eu estava certa. No CCBB do Rio de Janeiro, em 1989, assisti Natalia Thimberg num monólogo acompanhada apenas de um cello. Monólogo? Apenas? Qual o quê? O instrumento dialogava perfeitamente com a atriz. Era um ator e tanto, provocado por uma das grandes damas do teatro brasileiro.

Pois bem. Márcio Malard faz 70 anos! O violoncelo dele fala há 38 anos no Rio de Janeiro, desde aquela manhã de 31 de março de 64, quando o mineiro desembarcou no Rio para um teste para o naipe de cellos da Orquestra Sinfônica Brasileira.Sem entender muito bem o que acontecia, o ex-musico da Polícia Militar de Minas, assistia a mudança do País e da sua vida.

Naquele dia, o País ganhou anos de regime militar, a OSB ganhou um grande spala e a MPB um instrumentista ímpar que durante quatro décadas acompanha os maiores nomes da música.

Marcio Malard é sem dúvida o violoncelista brasileiro que consegue reunir com total conforto a elegância do clássico e o swing do popular, num dos instrumentos que mais se assemelha a voz humana. É um querido e um mestre generoso que pegou pelas mãos e entregou o arco do cello a vários talentos do mundo erudito e apresentou a outros tantos a oportunidade de alçar vôos internacionais. Como “aquele menino”, Antônio Menezes, que ainda no uniforme da Escola Pública sentou-se na última estante do naipe de cellos da OSB e Malard o levou ao camarim do famoso violoncelista italiano Antonio Janigro, que carregou o “menino” para Europa selando o destino do maior cellista do mundo na atualidade.

Márcio seguiu sua carreira no Brasil. Foram trinta e oito anos a frente do naipe de cellos da OSB. Tempo suficiente para conviver com grandes regentes e artistas legendários: Charles Dutoit, Eduardo Matta, Kurt Sanderling, Kurt Mazur, Antonio Janigro, Pierre Fournier, Leonard Rose, Janos Starker, Paul Tortelier, Rostropovich, C. Arrau, Arnaldo Estrella, Mariuccia Iacovinno, Iberê Gomes Grosso; este último seu grande mestre que – além das inesquecíveis lições musicais – foi quem lhe indicou para substituí-lo no Quarteto da Guanabara. Desde então são 25 anos de Quarteto da Guanabara, que reestreou este ano, como se nunca tivesse parado, segundo a crítica.

Paralelo a isso, Marcio Malard desenvolve também intensa carreira como camerista e solista de diversas orquestras brasileiras, além de atuações junto a grandes nomes da MPB, como Maria Bethânia e Wagner Tiso. Tocou com Tom Jobim na Banda Nova e com ele viajou por Los Angeles, Portugal, Espanha. Como professor lecionou nos festivais de Curitiba, Ouro Preto, Brasília, Teresópolis, entre outros. Malard atuou também como violoncelista convidado da Orquestra Filarmônica Mundial na turnê do Japão sob a regência do Maestro Sinoppoli. Foi fundador do Rio Cello Ensemble e da Orquestra de Câmera do Brasil com o Maestro e compositor José Siqueira. É, sem dúvida, um dos instrumentistas mais aclamados pelo meio musical brasileiro.

Em plena atividade, Marcio Malard faz 70 anos, sem perder o brilho nos olhos que um menino carrega ao abraçar a paixão pela primeira vez. E a paixão aqui é o violoncelo, para nossa felicidade.

Obrigada Malard!

 

*Sheila Aragão é Jornalista, atriz, diretora e produtora cultural.

Enviado por: Sheila Aragão  29/07/2011 - 20:20