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Microsoft apura mira contra parceiros fabricantes de computadores

26/06/201214:34

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Foto: Divulgação

Mais ou menos quando o iPad foi lançado, dois anos atrás, os executivos da Microsoft descobriram com algum espanto até onde a Apple estava disposta a ir a fim de garantir vantagem para um de seus produtos.

A Microsoft descobriu via fontes setoriais que a Apple havia adquirido grandes volumes de alumínio de alta qualidade de uma mina na Austrália a fim de produzir a estrutura que caracteriza seu iPad.

Os executivos se espantaram com a disposição da Apple de percorrer toda a cadeia de suprimento a fim de garantir materiais inovadores para o iPad, e de, depois de fazê-lo, tentar garantir toda a oferta desses suprimentos disponível no mercado.

Os executivos da Microsoft estavam preocupados porque os fabricantes de computadores pessoais não pareciam fazer esse mesmo tipo de aposta, disse um ex-funcionário da Microsoft, sob condição de anonimato.

O incidente foi um dos muitos, nos últimos anos que gradualmente convenceram a Microsoft a criar um tablet próprio, exibido pela primeira vez na semana passada. A decisão foi a prova mais contundente do atrito que existe entre a Microsoft e seus parceiros fabricantes de computadores.

SURFACE NO FIM DO TÚNEL

É a primeira vez em quase quatro décadas de história da companhia que ela venderá hardware de computação diretamente, concorrendo com os fabricantes de computadores que são os maiores clientes de seu sistema operacional Windows.

Para os fabricantes de hardware, o mercado de computadores vêm sendo um desafio há muito tempo, porque a Microsoft e a Intel, fabricante dos microprocessadores que acionam a maioria dos computadores, costumam ficar com a maior parte dos lucros do setor, deixando apenas uma fatia magra para os fabricantes.

Estes pagam taxas salgadas de licenciamento à Microsoft pelo Windows, o que os pressiona a fabricar computadores pelo menor custo possível, usando componentes genéricos.

Isso limita sua capacidade para assumir os riscos de inovação de hardware que ajudaram a definir o iPad. Além disso, com o iPad, a Apple provou que existem vantagens significativas para o projeto combinado de hardware e software. Em empresas separadas, com cada qual seguindo suas prioridades, integrar hardware e software pode se provar mais complicado.

"Existe uma estrutura de parceria na qual os parceiros não têm oxigênio para serem inovadores", disse Lou Mazzuchelli, executivo de um fundo de capital para empreendimentos e ex-analista de tecnologia. "Acredito que a Microsoft estava encurralada. Se não agissem logo, a vantagem da Apple se tornaria grande demais e recuperar o atraso se provaria quase impossível."

Steven Guggenheimer, vice-presidente da Microsoft, afirmou em comunicado que os parceiros da hardware da empresa não haviam influenciado sua decisão de criar um tablet próprio. "A Microsoft tem imenso respeito por nossos parceiros de hardware e pela inovação que propiciam no ecossistema do Windows", afirmou o executivo. "Esperamos com ansiedade pela gama incrível de novos aparelhos que eles estão criando para o Windows 8."

ÁGUA E ÓLEO --OU QUASE ISSO

Uma das melhores ilustrações de como a Microsoft chegou à decisão de criar seu novo tablet, o Surface, é o relacionamento ocasionalmente conflituoso que mantém com a Hewlett-Packard, maior fabricante mundial de computadores. Antes mesmo do anúncio do iPad, no começo de 2010, os executivos da Microsoft estavam cientes de que os computadores estavam à beira de uma transformação, adotando telas de toque para controle em lugar de teclados e mouses.

Joe Klamar/France Presse
Surface nas mãos do CEO da Microsoft, Steve Ballmer
Surface nas mãos do CEO da Microsoft, Steve Ballmer

Uma década antes, Bill Gates, o presidente do conselho da Microsoft, havia introduzido um predecessor do iPad, chamado Tablet PC, mas o produto, fabricado por empresas de hardware, não era muito eficiente. Foi um fiasco.

Em 2007, o iPhone abriu os olhos do setor de tecnologia para as possibilidades de aparelhos portáteis com telas de toque. A Microsoft incluiu algumas capacidades primárias de controle por toque no Windows 7, sistema operacional lançado em 2009, ainda que poucos usuários dispusessem de computadores que pudessem empregar esses recursos.

Com a intensificação dos boatos quanto ao lançamento do iPad pela Apple, HP e Microsoft estavam correndo para criar um novo tablet, cujo protótipo Steve Ballmer, presidente-executivo da Microsoft, exibiu durante uma palestra na feira de eletrônica Consumer Electronics Show, em Las Vegas, em 6 de janeiro de 2010.

"A FÉ DESAPARECEU"

Mas quando chegou a hora de produzir o aparelho em sua forma definitiva, o tablet da HP --mais tarde batizado HP Slate 500--, começou a mudar para pior, de acordo com o antigo funcionário da Microsoft e com um antigo executivo da HP que trabalhou no projeto e também pediu anonimato. Embora o visual inicial do projeto tenha impressionado muita gente nas duas empresas, o produto terminou "completamente arruinado" quando a divisão industrial da HP começou a encomendar os componentes industriais do aparelho, disse o ex-funcionário da Microsoft.

No final do processo, da HP tinha um tablet espesso, com um processador Intel que gerava aquecimento acessivo, e o software e o hardware da tela não funcionavam bem juntos, causando demora sempre que um usuário tentava usar a tela de toque. "Seria como dirigir um carro que não faz a curva quando você gira o volante", disse o ex-executivo da HP.

Divulgação
HP Slate 2, sucessor do problemático Slate 500
HP Slate 2, sucessor do problemático Slate 500

Essa espécie de problema era inaceitável, especialmente depois que Steve Jobs, então presidente-executivo da Apple, mostrou o primeiro iPad, atraindo resenhas muito positivas, apenas três semanas antes da apresentação do aparelho da HP.

A Microsoft trabalhou com outros parceiros de hardware a fim de desenvolver produtos capazes de concorrer com o iPad, mas encontrou desacordos quanto a design e preços. "A fé desapareceu", da parte da Microsoft quanto aos seus parceiros de hardware, de acordo com outro antigo executivo da empresa. Entre os profissionais decepcionados estava Steven Sinofsky, o poderoso presidente da divisão Windows.

A HP ficou furiosa com a Microsoft por esta não fazer o suficiente para desenvolver um software Windows mais adaptado a aparelhos dotados de telas de toque. Os executivos se queixaram de que o software para o teclado virtual do Windows 7 não funcionava bem, e que os ícones na tela eram pequenos demais para que fosse possível digitá-los.

A Microsoft se recusou a dedicar recursos significativos para ajudar a HP, em parte porque a empresa estava dedicando sua energia ao Windows 8, uma nova versão de seu sistema operacional que estava sendo desenvolvida especificamente para acionar aparelhos equipados com telas de toque.

Um outro antigo funcionário da HP afirmou que a empresa e outros fabricantes de computadores precisavam de mais inovação da parte da Microsoft. Ele disse que os fabricantes de computadores consideram as taxas de licenciamento pagas pelo Windows como subsídio à pesquisa e desenvolvimento da Microsoft, um investimento que lhes permitiria desenvolver produtos lucrativos.

Henry Gomez, porta-voz da HP, se recusou a comentar.

HP SE AVENTURA NO SOFTWARE

Em abril de 2010, a HP tentou uma jogada audaciosa a fim de adquirir maior controle sobre o software que aciona seus produtos, tomando o controle da Palm, produtora do sistema operacional WebOS para aparelhos móveis, por US$ 1,2 bilhão. Um fator importante na decisão foram os repetidos atrasos da Microsoft no lançamento de um novo sistema operacional para smartphones, o que paralisava parceiros como a HP, de acordo com um dos antigos funcionários da empresa.

  Reprodução/wibozi.com  
Telas do webOS, sistema da Palm, adquirida pela HP, utilizado em tablets de pouco sucesso
Telas do webOS, sistema da Palm, adquirida pela HP, utilizado em tablets de pouco sucesso

Mas as vendas fracas do tablet e celulares inteligentes equipados com o WebOS condenaram esse esforço ao fracasso. (O fato de a HP ter demitido dois presidentes-executivos ao longo desse período, por motivos não relacionados a esses produtos, também influenciou a situação negativamente). A empresa colocou o WebOS no mercado como software de fonte aberta, mas não produz mais aparelhos que o utilizem. No ano passado, a companhia chegou a considerar a cisão de sua divisão de computadores, mas desistiu rapidamente da ideia.

Diante desse panorama, a Microsoft começou a investir mais no desenvolvimento de hardware próprio na categoria tablet, ainda que no final de 2010 não tivesse decidido se venderia o aparelho diretamente ou o licenciaria para outros fabricantes, disse o antigo funcionário da Microsoft.

Alguns observadores do setor de tecnologia continuam a acreditar que a Microsoft deixará de lado a fabricação e venda direta de seu tablet tão logo consiga persuadir outras companhias de hardware a produzir bons aparelhos. "Acho que assim que eles fizerem esse segmento pegar no tranco, planejam ganhar dinheiro como sempre fizeram --licenciando software", disse Michael Cusumano, professor de administração de empresas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

INSPIRADOS PELA APPLE

Inspirada pelas ações da Apple com relação ao alumínio, a Microsoft começou a estudar atentamente materiais que pudessem ser usados para criar uma carcaça inovadora para um tablet. Os membros da equipe Windows optaram pelo magnésio, um metal leve que funcionou bem nos testes, de acordo com o ex-funcionário da Microsoft.

Na semana passada, a empresa dedicou porção significativa de seu evento de lançamento do novo tablet a descrever a carcaça de magnésio do Surface, definida como forte e resistente a arranhões, de acordo com o antigo executivo da Microsoft. "É um revestimento único", disse Sinofsky, erguendo o aparelho cinzento em suas mãos.

*Folha

JF