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  • 7 maio 2015

Liga dos Sonhos: Esporte Espetacular detalha os 60 anos da Champions

Esquadrões inesquecíveis, estádios emblemáticos, dramas, golaços, estrelas de todas as épocas. Já se vão seis décadas. E o sonho de conquistar, de dominar, ser o maior, o melhor time da Europa continua vivo. São os 60 anos da Liga dos Campeões, a maior competição de clubes do mundo. E, para contar a história de sucesso desta batalha pela hegemonia do futebol europeu que atravessou o tempo, a equipe de reportagem do Esporte Espetacular (repórter Carlos Gil, produtor Igor Castello Branco e os cinegrafistas Ulisses Mendes e Eduardo Torres) viajou para mais de dez países, entrevistou personagens e craques eternos – protagonistas de imagens raras e inéditas na televisão. Tudo isso contado em três episódios inesquecíveis, que destacam também a importância dos jogadores brasileiros, alguns ainda desconhecidos das novas gerações, no processo de consolidação da competição. A partir deste domingo, 10 de maio, o EE apresenta a série “A Liga dos Sonhos – Os 60 anos da Liga dos Campeões da Europa“.

O sonho começa em Paris, dos cartões postais, das atrações turísticas – cidade que também está na história do futebol europeu. Foi na capital francesa, mais precisamente na sede do jornal esportivo “L’Equipe”, que em 1954 nasceu a ideia de criar a competição, que reuniria as melhores equipes do continente. E, para investigar a fundo essa informação, a equipe de reportagem conversou com vários especialistas esportivos e jornalistas locais e descobriu que Jacques Ferran, um dos idealizadores da Liga dos Campeões, ainda está vivo. Aos 95 anos, e dono de uma memória invejável, o jornalista francês recebeu o Esporte Espetacular em sua casa no centro de Paris e contou como Sul-Americano de 1948 (vencido pelo Vasco) e um artigo, escrito por seu colega, Gabriel Hanot, que criticava a “euforia” da imprensa inglesa com um time local, deram origem à “Taça dos Clubes Campeões Europeus” (competição só viraria Liga dos Campeões em 1992). De Paris, o EE seguiu viagem para Toulouse e Arles para entrevistar Just Fontaine e Kopa, craques franceses do Mundial de 58, mas essa história vem a seguir…
taça liga das campeões (Foto: Agência EFE)
A famosa taça da Liga dos Campeões, objeto de desejo dos clubes da Europa há 60 anos (Foto: Agência EFE)

Depois da França, o Esporte Espetacular desembarcou na Espanha, onde fez uma visita ao estádio Santiago Bernabéu e às instalações do Real Madrid, o maior vencedor da Liga. O clube conquistou metade dos seus dez títulos, ou seja, cinco, nas cinco primeiras edições do torneio. Até hoje, um feito que jamais foi batido. Gento (o recordista de títulos na Liga), Raymond Kopa (derrotado defendendo o Reims em 55 e contratado depois) e Just Fontaine (derrotado defendendo o Reims em 59) resumiram bem o que foi o poderoso Real Madrid dos primeiros anos da então Copa dos Campeões da Europa: “Uma verdadeira constelação, regida por Di Stefano”.

Estrelas, aliás, que acabaram impedindo o triunfo de um brasileiro pioneiro: Julinho Botelho, que brilhou na Portuguesa e no Palmeiras, mas também virou ídolo na Fiorentina, da Itália. Em 1957, Julinho foi o primeiro jogador brasileiro que disputou uma partida na Liga dos Campeões, o primeiro também que fez gol e o primeiro que jogou uma final. A derrota na decisão para o Real, porém, foi um espinho na garganta que ele carregou para o resto da vida, afirmou Antônio Botelho, filho de Julinho, em um depoimento acompanhado de muitas lágrimas.

A “Orelhuda”, como carinhosamente é chamada a taça da Champions League, só seria erguida pela primeira vez por um brasileiro em 1960 – vitória do Real Madrid sobre o Eintracht Frankfurt por 7 a 3. Naquela temporada, na constelação do Madrid, o camisa 7 carregava o selo de qualidade verde e amarelo: Darcy Silveira dos Santos, o Canário, ex-jogador do América-RJ, foi parar no clube espanhol porque curiosamente era um desejo antigo do Flamengo e formou ao lado de craques como Di Stéfano e Puskás um ataque dos sonhos, sempre reverenciado pelos torcedores merengues. Desde então, ele vive na Espanha, em Zaragoza, cidade para onde se mudou em 1963. Canário recebeu o Esporte Espetacular na residência de seu filho Jorge e, feliz pelo encontro com jornalistas brasileiros depois de tanto tempo, relembrou emocionado detalhes daquela que é considerada por ele a maior final de todos os tempos da Champions e, além disso, o motivo que fez o bicampeão mundial Didi, o outro brasileiro do elenco, não dar certo em Madri.

ao lado de di stéfano e puskas em 60, canário se tornou o primeiro brasileiro campeão da champions (Foto: Igor Castello Branco)
Canário é o primeiro brasileiro a ser campeão da Europa, pelo Real Madrid, em 1959/1960 (Foto: Igor Castello Branco)

Da Espanha para Portugal. Em Lisboa, numa visita ao Estádio da Luz, casa do Benfica, o EE encontrou o ex-jogador do Benfica e da seleção portuguesa, Antônio Simões, e o biógrafo de Eusébio, o escritor português João Malheiro. Juntos, eles relembraram como Portugal, país que ainda não era muito conhecido futebolisticamente na Europa, reinou no continente por dois anos seguidos. Em 61, o Benfica bateu na final o Barcelona, que com gol do brasileiro Evaristo de Macedo na fase anterior eliminou o Real Madrid e interrompeu os cinco títulos seguidos. Em 62, os Encarnados conquistaram o bicampeonato em cima do Real Madrid, tendo como destaque um garoto que veio de Moçambique para mudar para sempre a história do futebol português e que ascendeu anos depois à restrita galeria dos imortais do mundo da bola.

Evaristo de Macedo gol Barcelona 1960 contra Real Madrid Copa Europa (Foto: Reprodução)
Gol de Evaristo pelo Barça acabou com hegemonia do Real no torneio (Foto: Reprodução)

Depois de Portugal, o próximo destino foi a Itália. A partir de 1963, a Europa teve uma nova capital da bola, graças a um meio brasileiro, meio italiano, que fez história em Milão. José João Altafini, o Mazzola, recebeu nossa equipe em Turim, onde fixou residência, e falou sobre a emoção de ter feito os gols da vitória do Milan na final de 63, contra o poderoso Benfica, de Eusébio. Mazzola entrou para a história porque foi o primeiro brasileiro a marcar numa final de Liga dos Campeões, além disso chegou à marca de 14 gols em 1962/63 – recorde de gols numa só temporada, que ostentou por 51 anos até ser superado por Cristiano Ronaldo. Mantendo a hegemonia da cidade de Milão, o Internazionale foi bicampeão nos anos seguintes (em 64 e 65), com Jair da Costa, brasileiro campeão mundial, no elenco. Em 65, aliás, ele foi protagonista e contou como a chuva que caiu minutos antes da decisão contra o Real Madrid lhe deu uma ajudinha para colocar seu nome na história – motivo que faz Jair dar muitas risadas até hoje.

Da década de 60 para a década de 70, período em que os brasileiros não brilharam na Liga dos Campeões. Nessa época, a Europa se renderia ao talento dos holandeses, alemães e ingleses. Primeiro, o Ajax, tricampeão europeu (em 71, 72 e 73), que teve Cruyff como o verdadeiro símbolo de uma geração, que revolucionou pra sempre o esporte. Eram os anos do “futebol total” da Laranja Mecânica, e Cruyff relembra como os títulos do Ajax foram importantes no processo de afirmação dessa filosofia que encantaria o mundo na Copa de 74. Tomando a coroa, Beckenbauer e um Bayern de Munique, que mostrou o melhor do vigor físico e da qualidade técnica do futebol alemão. O clube também ergueu três taças em série (em 74, 75 e 76) e, em entrevista, o Kaiser mostrou toda a sua nobreza e elegeu a conquista mais difícil, além do momento mais inesquecível da sua carreira quando o assunto é Liga dos Campeões.

símbolo do "futebol total", cruyff conta como ajax conquistou três títulos europeus em série na década de 70. (Foto: Igor Castello Branco)
Cruyff conta como Ajax conquistou três títulos europeus em série na década de 70 (Foto: Igor Castello Branco)

Em 1977, ao derrotar o Borussia Mönchengladbach, o Liverpool ridicularizou as probabilidades tendo em vista as temporadas anteriores e começou a escrever seu nome na Liga dos Campeões, iniciando o maior período de domínio de um só país até hoje no torneio. Entre o fim dos anos 70 e meados dos anos 80, foram sete títulos ingleses em oito temporadas – Liverpool (tetracampeão), Nottingham Forest (bicampeão) e Aston Villa (campeão). Para o jornalista Tim Vickery e o zagueiro Phil Thompson, ex-Liverpool, tudo se resumia a “pura aplicação tática e muita posse de bola”. Mas, então, quem poderia parar o sucesso inglês nas próximas temporadas?

No próximo episódio: os erros que levaram às mortes em Heysel, o renascimento do Milan e o fim dos jejuns de Barcelona e Real Madrid.