Fiéis denunciam comando com mão de ferro no Vale do Amanhecer

Sorriso fácil é marca registrada dos frequentadores do Templo Mãe da doutrina Vale do Amanhecer, no bairro homônimo, em Planaltina, a 45km do centro da capital. Esbanjam alegria e saúdam todos, sejam conhecidos ou não. No entanto, a animação dá lugar à preocupação e ao mistério quando é mencionado o nome de Raul Zelaya, presidente da Obras Sociais da Ordem Espiritualista Cristã (Osoec), administradora — sem fins lucrativos — do templo.

Um dos quatro filhos da fundadora da doutrina, Tia Neiva, o homem comanda as atividades com mão de ferro desde 2009, à base de despotismo, segundo frequentadores. A partir daquele ano, ele engrossou a lista de problemas enfrentados pela Osoec. Entre eles, o impasse judicial acerca da penhora de seu patrimônio e motivado por uma ação judicial da TIM.

Raul Zelaya está no centro de outra polêmica. Ele tem expulsado do templo dezenas de fiéis, sem dar, ao menos, chance de defesa. Apesar disso, o direito de recurso está previsto no estatuto da doutrina, criado pelo próprio presidente em seu primeiro ato no comando.

“Infelizmente, a palavra que o define é ditador. Nós não podemos proibir ninguém de entrar aqui. A porta é aberta para todos. Não há distinção de cor, raça”, reclama um frequentador da doutrina, que não se identifica por medo de represália.

O temor por retaliação, inclusive, é sentimento comum entre aqueles que não compactuam com a “ditadura” de Raul. Quando indagados sobre o comando do presidente, seguidores e dissidentes despistam e, em uma primeira abordagem, preferem não comentar.

“Ocorreu (expulsão) porque não concordamos com a atual administração. O Vale do Amanhecer tornou-se associação. Só podem trabalhar lá os que baixam a cabeça e concordam com ele (Raul)”, lamenta outro frequentador, também sob condição de anonimato.

Ele mora em São Paulo, onde trabalha em um templo externo da doutrina desde que deixou o Distrito Federal, no fim de 2009, logo após a posse de Raul. “O motivo maior da minha saída de Brasília foi a expulsão. Como vou ficar no lugar se não sou bem-vindo?”, indaga.

A chegada do herdeiro de Tia Neiva à presidência iniciou a série de conflitos. Houve confusão logo na assembleia na qual ele destronou o irmão mais velho Gilberto Zelaya, hoje “desencarnado” (como os seguidores da doutrina denominam quem faleceu).

Na ocasião, segundo fiéis, Raul organizou a sessão com cartas marcadas: não comunicou aos frequentadores do Vale e compôs, deliberadamente, o conselho que votaria a escolha do novo comandante. Além disso, houve troca de socos e bate-boca entre seguidores.

 

Logo após a assembleia conturbada, Raul promulgou novo estatuto da Osoec, no lugar do que a mãe dele havia elaborado, segundo fiéis. O texto substitutivo modificou a estrutura da diretoria e deu mais poder ao presidente. Apesar disso, não confere a ele arbítrio para expulsar frequentadores sem chancela prévia do Conselho de Ética e Disciplina.

Assim, o novo estatuto gerou insatisfação entre os frequentadores. O cenário agravou-se quando Raul mandou embora, de uma só vez, 55 pessoas do templo. Entre elas, a cunhada, Nair Zelaya, mulher de Gilberto, e a sobrinha, Agla Zelaya, filha do casal. Segundo as denúncias recebidas pela reportagem, as expulsões ocorrem até os dias atuais, mas não são publicadas pelo presidente.

A decisão não os impede de frequentar o local, mas de participar dos trabalhos mediúnicos no Templo Sagrado, bem como obter consagrações e liderar falanges (grupos). Tampouco veta a prática de “missões” — como os seguidores denominam as atividades —, desde que ocorra em templos de outros estados ou do exterior.

 

 

 

Por causa disso, uma seguidora viaja com o marido e os filhos a outras unidades da Federação para exercer a própria fé. Sob anonimato, ela contou que, no último dia 8, por exemplo, esteve no templo de Riachinho, em Minas Gerais, a 300km de Planaltina, onde mora com a família.

“Em qualquer templo, posso colocar minha indumentária (vestimenta específica) e trabalhar em paz. Mas, do Templo Mãe, que fica praticamente ao lado da minha casa, eu seria retirada”, lamenta.

 

 

 

Autoridades
As denúncias feitas pelos frequentadores do Vale do Amanhecer chegaram ao Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos. “Nos próximos dias, vamos convocar o presidente para explicar questões que não estão claras, como a da liberdade religiosa. As pessoas têm direito de frequentar o espaço”, disse o presidente da entidade, Michel Platini.

A Constituição Federal determina que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e às liturgias”.

Segundo Platini, se após as explicações de Raul não houver solução para os impasses, o conselho poderá apresentar representação à Justiça. Já o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) não investiga denúncias de cerceamento do direito ao exercício de cultos religiosos, mas concentra esforços sobre a ação judicial movida pela TIM, que provocou a penhora dos bens do Vale do Amanhecer, avaliados em R$ 5,2 milhões.

No dia 15 de maio, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) acolheu recurso do MPDFT e suspendeu a decisão. A liminar, da desembargadora Carmelita Brasil, de segunda instância, também considerou o pedido feito pelo Ministério Público para ingressar na ação em defesa do interesse público e do valor histórico e cultural.

No último dia 2, a procuradora distrital dos Direitos do Cidadão Maria Rosynete de Oliveira Lima determinou reunião entre promotorias do MPDFT para analisar a situação do Vale do Amanhecer. No entendimento dela, o assunto envolve propriedades públicas, “parcelamento irregular do solo para fins urbanos, possíveis ilícitos criminais e eventual falta de prestação de contas”.

A possível falta de transparência sobre o entra-e-sai de dinheiro na Osoec mencionada pela procuradora é explicada pelo mistério que cerca as finanças da Ordem. Isso porque Raul Zelaya jamais prestou contas aos seguidores da doutrina. “É só procurar meu contador”, respondeu o presidente, em contato com o Metrópoles.

O outro lado

Raul Zelaya negou as acusações de cerceamento à liberdade de culto religioso. Mas confirmou a veracidade do documento no qual expulsa 55 frequentadores do templo. “Eles criaram outra doutrina com os mesmos ensinamentos. São pessoas que vêm só para denegrir (a imagem do templo)”, justificou.

Os dissidentes alegam que apenas seguiram Gilberto Zelaya, que, depois de ser deposto pelo irmão mais novo, passou a se dedicar aos templos externos da doutrina, por meio da Coordenação-Geral dos Templos do Amanhecer (CGTA). Raul, no entanto, entendeu o ato como insubordinação e, por isso, os expulsou.

Hoje, o atual presidente adota outro discurso: diz que os excluídos — sejam ninfas (mulheres) ou mestres (homens) — não têm o que temer e podem frequentar o templo normalmente. Inclusive, participar dos trabalhos mediúnicos no Templo Sagrado.

 

 

 

Fonte: Quidnovi/ Metrópoles