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  • 24 mar 2015

Baía, mobilidade, segurança, conexão e protestos: cinco desafios a 500 dias

A 500 dias de a chama olímpica ser acesa, os Jogos de 2016 tem seus desafios. Começam na segurança e nos transportes, com as peculiaridades de uma cidade que sofre com violência urbana e nós no trânsito. A eles se junta um recente, a tecnologia das telecomunicações, que precisa resolver a falta de sinal na segunda principal área de competição, Deodoro. Para completar cinco metas, duas bastante específicas do Rio: a Baía de Guanabara, cuja missão não é nem chegar mais aos 80% de tratamento do esgoto, como foi prometido no dossiê de candidatura, mas evitar que o lixo comprometa a competição de vela e nenhum atleta fique doente; e o quinto, a possibilidade de manifestações populares. O governo garante que a crise econômica e a operação Lava Jato, que atingiram empreiteiras envolvidas nas obras olímpicas, não afetaram o ritmo dos trabalhos.

 

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Segurança

 O primeiro mês de 2015 registrou 32 pessoas atingidas por balas perdidas. Quatro pessoas morreram, sendo duas crianças. O número de vítimas de bala perdida subiu para 40 no fim de março. A maior parte dos casos aconteceu em regiões com Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Na Barra da Tijuca, bairro do Parque Olímpico, tornaram-se frequentes ações de assaltantes em motos nas principais vias. No final do ano passado, as iatistas britânicas Hannah Mills e Saskia Clark foram assaltadas no caminho da Marina da Glória para o hotel, no Aterro do Flamengo, área onde costuma acontecer esse tipo de ação. Arrastões nas praias da Zona Sul foram uma das marcas do verão que terminou na última sexta-feira.

Polícia Militar treinamento com franceses Olimpíadas 2016 (Foto: André Gomes de Melo/Governo do RJ)Treinamento da Polícia Militar para as Olimpíadas no Maracanã (Foto: André Gomes de Melo/Governo do RJ)

Questionado sobre a violência na cidade, no fim do mês passado, durante a visita do Comitê Olímpico Internacional (COI) ao Rio, o presidente do Comitê Organizador dos Jogos, Carlos Arthur Nuzman, preferiu dizer que no Brasil não existem atos de terrorismo. O presidente da entidade, Thomas Bach, mostrou confiança nas autoridades do Brasil, dando a Copa do Mundo como exemplo. Ressaltou o trabalho do Centro de Comando e Controle e disse que “os Jogos não podem garantir a segurança da cidade pelos próximos 10 anos”, mas lembrou que os equipamentos ficarão como legado. A segurança foi um dos principais temas da conversa do dirigente com Dilma Rousseff, em Brasília. Na ocasião, a presidenta se comprometeu com a integração das polícias federal, militar e civil durante os Jogos.

Nesta terça-feira, 24 de março, o GloboEsporte.com transmite ao vivo um programa especial para marcar os 500 dias que faltam para as Olimpíadas de 2016. A transmissão começa às 14h. Não deixe de participar!

A integração destas e de cerca de 20 instituições, além das Forças Armadas, é atribuição do Ministério da Justiça, que contará com um orçamento de R$ 350 milhões. A pasta trabalha com a estimativa do Comitê Rio 2016 de 1,5 milhão de torcedores e 20 mil jornalistas. Será preciso garantir os descolamentos de 10 mil atletas e dezenas de chefes de estado pela cidade. Muitos deles estarão na cerimônia de abertura do Maracanã, o que vai demandar um cuidado especial. A preocupação com a segurança nos Jogos Olímpicos cresceu depois do atentado de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Mesmo não havendo terrorismo no país, equipes de seguranças estão realizando treinamentos específicos. A Vila dos Atletas e o Centro Internacional de Transmissão (IBC), que vai abrigar emissoras de rádio e TV, são considerados os lugares mais estratégicos.

Vila dos Atletas Rio 2016 (Foto: Bruno Carvalho / Brasil 2016 - ME)
Vila dos Atletas: área estratégica para a segurana dos Jogos Olímpicos (Foto: Bruno Carvalho / Brasil 2016 – ME)

O plano de segurança deverá ser finalizado até julho para ser colocado em prática no primeiro evento-teste do ano, as finais da Liga Mundial de vôlei, no Maracanãzinho. Ainda não se sabe quantos agentes serão utilizados nas Olimpíadas, já que no fim do mês passado o Comitê Rio 2016 transferiu para o governo federal a responsabilidade da segurança dentro das arenas esportivas. O número deverá ser maior do que os 20 mil agentes que atuaram na final da Copa do Mundo. O trabalho é coordenado pelo Secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos, Andrei Rodrigues.

– Queremos ter um desenho próximo do plano das Olimpíadas a partir do evento-teste. Se houver necessidade, ele pode sofrer adequações. Vamos fazer projeções de acordo com cada competição, cada nível de atleta e cada país que estiver em ação. Contando com as Paralimpíadas, serão mais de 30 dias para operar 24 horas por dia com milhares de agentes. Assim como na Copa, o grande desafio é pôr em prática o processo que fizemos de integração com as entidades que atuam na segurança. Não é uma ação que seja feita por um único órgão – disse o secretário.

As Forças Armadas vão cuidar de quatro áreas de atuação: defesa aérea, fiscalização de explosivos, segurança cibernética e prevenção e combate ao terrorismo. Dentre os equipamentos que serão adquiridos estão quatro balões que chegam a 300 metros de altura e registram imagens de alta resolução a grandes distâncias. Também serão adquiridos bombas de efeito moral e sprays de pimenta para combater possíveis protestos (veja no quinto item).

02

Baía de Guanabara

Imagine um ginásio de basquete com uma goteira bem em cima da quadra. Ou uma pista de ciclismo com buracos escondidos. Problemas que interfiram no desempenho do atleta. A comparação é válida ao se falar da Baía de Guanabara, palco da vela dos Jogos Olímpicos, e área de competição mais problemática do Rio 2016. Da mesma forma que um jogador pode escorregar ao tentar uma enterrada, um iatista corre o risco de perder uma medalha se um saco plástico prender em seu barco.

Poluição Baía de Guanabara (Foto: AP)Poluição na Baía de Guanabara: Inea diz que áreas das regatas estão dentro do padrão de qualidade (Foto: AP)

A Secretaria de Estado do Ambiente (SEA) afirma que em oito anos o tratamento de esgoto na Baía de Guanabara passou de 17% para 49%. O governador Luiz Fernando Pezão admite que a meta de 80% estabelecida no dossiê de candidatura não será alcançada nos próximos 500 dias. Em sua visita mais recente ao Rio, no fim do mês passado, o Comitê Olímpico Internacional mostrou preocupação, mas adotou um tom político e disse que prefere esperar até o fim. Mas pediu que o Comitê Rio 2016 acompanhasse a questão mais de perto. O problema não é apenas o lixo, mas também a qualidade da água. Alguns atletas estrangeiros já tomam precauções. Monitoramentos do Instituto Estadual de Ambiente (Inea), porém, indicam que a qualidade da água nas áreas das cinco raias olímpicas, entre a Ponte Rio-Niterói e o Pão de Açúcar, está de acordo com padrões internacionais.

Evento teste Vela (Foto: PecciCom)
Evento-teste da vela, em 2014 (Foto: PecciCom)

Em março, dois programas que vinham sendo infrutíferos foram suspensos: o trabalho de dez ecobarcos que recolhiam o lixo da superfície e as 14 ecobarreiras instaladas em córregos. Ecobarreiras mais robustas deverão ser instaladas em parceria com o Instituto Grael. Ainda este mês o governo holandês doou um equipamento para monitorar o lixo e ajudar na orientação dos ecobarcos na direção dos lugares mais sujos. Um sistema semelhante já existia no Brasil e foi desenvolvido pelo Coppe/UFRJ, que em recente estudo sobre o legado ambiental dos Jogos Olímpicos deu um prazo de dez anos para recuperar a Baía de Guanabara. O instituto de pesquisa em engenharia, porém, acredita que as águas da baía estão aptas a receber a vela em 2016.

Unidades de tratamento de rio e estações de tratamento de esgoto não funcionam plenamente. Falta coleta de lixo nos 15 municípios banhados pela baía. A SEA diz que pretende conscientizar a população sobre o descarte correto da sujeira. Uma parceria público-privada no valor de R$ 1,2 bilhão para o saneamento de esgoto da Baixada e região metropolitana do Rio deverá ser anunciada em breve.

Iatistas costumam ser procurados pela imprensa mais para falar (e reclamar) da água da Baía de Guanabara do que sobre um dos esportes que mais dão medalhas olímpicas ao país. As campeãs mundiais Martine Grael e Kahena Kunze, que já estudaram engenharia ambiental, levantam a bandeira pela despoluição de seu local de trabalho. Já pensaram em não competir como forma de protesto contra a poluição. Ricardo Winicki, o Bimba, já defendeu a mudança da vela para Búzios e vários atletas estrangeiros reclamaram da qualidade da água. O bicampeão olímpico, Robert Scheidt, minimiza o problema, já que não chove no período dos Jogos, em agosto. A esperança é que a recuperação da baía não seja deixada de lado depois dos Jogos, a exemplo de Sydney, que concluiu a limpeza de suas águas dez anos depois das Olimpíadas de 2000.

03

Transporte

O COI teme que nem as faixas exclusivas para atletas, árbitros, dirigentes e convidados da entidade possam impedir transtornos nos deslocamentos. Algumas provas de rua vão fechar vias importantes da cidade por algumas horas em dias da semana. Para reduzir 30% os deslocamentos durante as Olimpíadas e 10% durante as Paralimpíadas, a prefeitura propôs uma série de medidas que serão votadas na Câmara dos Vereadores. A principal delas é mudar as férias escolares do meio do ano de julho para agosto. Servidores públicos e empregados de grandes empresas serão motivados a fazer o mesmo. Dois feriados serão propostos durante os 16 dias de Jogos Olímpicos: dia 5 de agosto, abertura dos Jogos, e dia 18, prova masculina do triatlo. Há também medidas que proíbem obras em vias públicas e impõem horários de cargas e descargas. Em Londres, muitos moradores deixaram a cidade durante os Jogos de 2012, o que aliviou o trânsito.

Linha 4 do metrô (Foto: Divulgação)
Linha 4 do metrô, que vai da estação General Osório até a Jardim Oceânico (Foto: Divulgação)

O caminho da Zona Sul até o Parque Olímpico da Barra e de lá até Deodoro está rasgado por obras. Começam na estação General Osório, ponto de partida da linha 4 do metrô. A perfuração feita pelo Tatuzão até a futura estação Nossa Senhora da Paz ficou parada por seis meses depois que uma rua em Ipanema afundou. A máquina alemã que perfura o solo voltou a operar no fim do mês passado e concluiu o trecho. O Tatuzão vai ficar parado até abril para manutenção e depois abre caminho para as estações de Jardim de Alah, Antero de Quental e Gávea. O governo estadual diz que o trecho a ser perfurado, apesar de maior do que o inicial, é menos complicado. De São Conrado até a estação final Jardim Oceânico, os 5 km do túnel abertos a base de explosão já receberam trilhos. O prazo para que a linha 4 comece a operar é o dia 1° de junho de 2016, fora dos horários de pico, e plenamente um mês depois, cinco semanas antes dos Jogos Olímpicos.

A estação Jardim Oceânico e o terminal Alvorada serão ligados por uma linha de BRT, cuja construção já toma a Avenida das Américas. Da Alvorada, o BRT já existente faz a ligação até o Parque Olímpico e a Vila dos Atletas, onde as avenidas Salvador Allende e Abelardo Bueno estão sendo ampliadas. Dali sai a Transolímpica, via de 26 km que vai até Deodoro, segunda área esportiva mais importante dos Jogos. A ampliação do elevado do Joá também é feita a base de explosões, que desviam o trânsito duas vezes por dia. As duas pistas vão tentar desfazer o gargalo entre São Conrado e Barra.

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Conectividade

Segunda área mais importante dos Jogos Rio 2016, depois do Parque Olímpico, o Complexo Esportivo de Deodoro sofre com a falta de sinal de celular. Resolver este problema durante as disputas esportivas é um dos maiores desafios da área de tecnologia do Comitê Rio 2016. Para conectar a cidade “a qualquer hora, em qualquer lugar”, como prometeu o dossiê de candidatura, será preciso um trabalho em conjunto da Claro/Embratel, patrocinadora dos Jogos, com as outras três grandes operadoras do Brasil – Vivo, Oi e Tim. Diretor de tecnologia do Comitê Rio 2016, Elly Resende prefere não concentrar as dificuldades em Deodoro, mas admite os problemas da área:

– Não deveríamos nos limitar a Deodoro. Estabelecemos uma linha de trabalho que negocia com as outras operadoras para fazer os ajustes necessários para ter uma cobertura adequada em todos os locais dos Jogos. A própria Anatel está fazendo uma verificação de qualidade. É um esforço de todos. Em Deodoro tem um pouco mais de sombras de cobertura, mas em outros locais bem atendidos é preciso uma atenção. Quando se coloca muita gente em um local você pode ter problemas – explicou Resende.

maracanã selfie flamengo x botafogo (Foto: André Durão)
Torcedora usa o celular no Maracanã: trabalho para oferecer rede WiFi durante os Jogos (Foto: André Durão)

O compromisso de conectar a cidade será atingido, mas ficará restrito aos profissionais que vão trabalhar nos Jogos. Para os cerca de 20 mil jornalistas credenciados haverá acesso à rede WiFi “best effort”, abaixo da “high quality”. A rede mais capacitada para transmitir arquivos pesados, como fotos em tamanho original e vídeos, terá acesso pago. Caberá às operadoras ou ao governo fornecer acesso à rede WiFi ao público nos locais de competição, como aconteceu nos estádios da Copa do Mundo.

Deodoro (Foto: Leonardo Filipo)
Centro de Tiro em Deodoro: região sofre com dificuldade de sinal para celular (Foto: Leonardo Filipo)

– O que foi dito no dossiê era que nós atenderíamos aos profissionais das operações dos Jogos com serviço dedicado e isso seria complementado com as redes disponíveis na cidade de 3G e 4G. Não nos comprometemos em oferecer serviço gratuito na cidade toda. Estamos trabalhando com as operadoras e com os programas de acesso gratuito dos governos para viabilizar WiFi. Nos Jogos de Londres, a British Telecom comercializava o WiFi, mas de vez em quando liberava o acesso – comparou Resende.

Outra missão importante do serviço de tecnologia dos Jogos, que terá cerca de 700 profissionais envolvidos, será transmitir as informações internas dos Jogos. Em caso de falha em um ponto, será preciso estabelecer uma solução rápida. As informações que vão circular por meio de 10 mil rádios vai depender de uma frequência protegida pela Anatel.

05

Manifestações populares

Os focos de insatisfação contra as Olimpíadas são pequenos. Por enquanto, nada parecido com o “Não vai ter Copa”, surgido nas manifestações de junho e julho de 2013. Naquela ocasião, a revolta contra a falta de “padrão Fifa” na saúde e educação, junto com os seguidos estouros nos orçamentos dos estádios, se juntaram às diversas pautas, como aumento das passagens dos transportes públicos, combate à corrupção e à violência policial, entre outros.

Protesto contra o COI Rio (Foto: Leonardo Filipo)Protesto contra o COI na porta de um hotel em Copacabana no Rio (Foto: Leonardo Filipo)

Sem estouros nos orçamentos, os focos de manifestações contrárias aos Jogos se concentram nas obras do campo de golfe e da Marina da Glória. Inspirados no Occupy Wall Street, manifestantes criaram o “Ocupa Golfe” e o “Ocupa Marina”. O primeiro está desde o início de dezembro em frente ao terreno da Barra da Tijuca onde a instalação está quase pronta. A ação começou depois da Justiça negar o pedido do Ministério Público para suspender a licença ambiental da obra. O grupo já sofreu algumas tentativas de expulsão da Guarda Municipal. Em fevereiro, o movimento “Golfe Para Quem?” entrou com uma ação no mesmo MP para investigar um possível favorecimento do prefeito à construtora que vai construir o campo de golfe. Já o “Ocupa Marina” surgiu depois do corte de quase 300 árvores na obra de revitalização do local da vela em 2016. Ambos os movimentos pedem o embargo das obras.

Altair Antunes Guimarães, líder comunitário da Vila Autódromo (Foto: Thierry Gozzer)
Altair, líder comunitário da Vila Autódromo (Foto: Thierry Gozzer)

Na última sexta, a prefeitura desapropriou 58 imóveis na Vila Autódromo, vizinha ao Parque Olímpico. Os proprietários não entraram em acordo para deixar suas casas, agora consideradas bens de utilidade pública. Os valores das indenizações serão definidos pela Justiça. Das quase 600 famílias, 280 tiveram que sair para as obras de duplicação das avenidas Salvador Allende e Abelardo Bueno. A maioria aceitou ir para o Parque Carioca, condomínio popular a cerca de 2km dali.

Professor do Ippur, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, Carlos Vainer acredita que o crescimento para a Zona Oeste é equivocado. Atende a interesses de proprietários de terras na região da Barra da Tijuca, caso do campo de golfe e de empreiteiras que se beneficiam das obras. Vainer não se arrisca em dizer se haverá novas manifestações nas ruas, mas diz que a situação do país é pior do que em 2013.

– Como o povo vai reagir, isso é difícil de prever. Mas as razões e causas que provocaram aqueles movimentos permanecem. E agravadas por uma crise econômica, que não acontecia em 2013. A temperatura sobe, o doente pode ficar com febre e decidir se permanece deitado ou levanta – comparou Vainer.

Aconteçam manifestações ou não, o governo já se preparou comprando cerca de 9 mil granadas de efeito moral e gás lacrimogêneo, e quase 1.500 sprays de pimenta.