Ás vésperas da Copa de 2018 e obras prometidas para a copa de 2014 continuam inacabadas

Mil quatrocentos e sessenta dias separam o primeiro jogo da Copa do Mundo de 2014 em Brasília da cerimônia de abertura da próxima edição do evento, na Rússia. Esses quatro anos foram suficientes para minimizar o trauma da seleção brasileira e transformá-la em candidata ao título, mas não bastaram para que o Distrito Federal concluísse cinco obras previstas para o Mundial disputado em casa.

G1 publica nesta quarta-feira (23) o balanço das obras prometidas para a Copa de 2014 em todo o país. Em Brasília, as pendências envolvem intervenções de mobilidade urbana e urbanização.

As cinco obras não concluídas no Distrito Federal até hoje não têm previsão de entrega:

  • Urbanização do entorno do estádio Mané Garrincha
  • Instalação do VLT entre o Aeroporto de Brasília e o Plano Piloto
  • Criação de um jardim inspirado em Burle Marx
  • Reforma das calçadas dos setores hoteleiros Norte e Sul
  • Construção de túneis entre o Centro de Convenções, o Mané Garrincha e o Parque da Cidade

Veja a situação de cada uma das promessas para a Copa ainda não cumpridas na capital:

Entorno do Mané Garrincha

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: entorno do estádio Mané Garrincha (Foto: TV Globo/Reprodução)Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: entorno do estádio Mané Garrincha (Foto: TV Globo/Reprodução)

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: entorno do estádio Mané Garrincha (Foto: TV Globo/Reprodução)

  • O que foi prometido: um projeto de urbanização e paisagismo em um raio de 3 km no entorno do Mané Garrincha.
  • A situação atual: ao redor da arena, nada foi feito. Grades não previstas no projeto original separam o Eixo Monumental dos portões do estádio. Parte do estacionamento ainda é utilizada como garagem de ônibus. Em eventos noturnos, o público costuma reclamar da falta de iluminação na dispersão.
  • Valores: o investimento previsto era de R$ 285 milhões, incluindo paisagismo e túneis para pedestres e veículos (veja detalhes abaixo). Segundo o Tribunal de Contas, R$ 6,98 milhões foram desembolsados pelo governo antes da rescisão do contrato.

Os governos de José Roberto Arruda (à época, no DEM) e Agnelo Queiroz (PT) prometeram entregar o Mané Garrincha junto de obras que urbanizassem o entorno da arena mais cara da Copa do Mundo – as estimativas variam entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,1 bilhões.

O arquiteto responsável pelo projeto do estádio, Eduardo Castro de Mello, chegou a dizer que as intervenções na área eram fundamentais porque o Mané ocupa “uma área muito nobre da cidade”.

Em 2012, o governo do Distrito Federal (GDF) desistiu de entregar o entorno do estádio a tempo da Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Novos prazos foram estabelecidos, mas nunca cumpridos.

A obra chegou a ser licitada em 2013, mas o contrato foi rescindido. Segundo o Tribunal de Contas, quase R$ 7 milhões foram gastos pelo DF durante a indefinição.

Resultado: segundo o governo, a obra no entorno do estádio só será tocada quando a iniciativa privada assumir o espaço. A construção de um “bulevar comercial” está prevista na região, mas o problema é que o processo de concessão do Mané Garrincha e do complexo esportivo em redor, intitulado Arenaplex, foi suspenso em março pelo Tribunal de Contas do DF.

O mito do VLT

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: estação do VLT abandonada desde 2010 (Foto: Ana Luiza de Carvalho/G1)Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: estação do VLT abandonada desde 2010 (Foto: Ana Luiza de Carvalho/G1)

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: estação do VLT abandonada desde 2010 (Foto: Ana Luiza de Carvalho/G1)

  • O que foi prometido: a construção de uma linha do veículo leve sobre trilhos (VLT) – uma espécie de metrô de superfície – entre o terminal da Asa Norte e o Aeroporto de Brasília, passando pela avenida W3.
  • A situação atual: sem expectativas. O governo não planeja construir nenhum VLT no Distrito Federal, e nem reforçar o trajeto entre o Aeroporto de Brasília e o Plano Piloto com qualquer opção adicional de transporte.
  • Valores: a obra completa previa R$ 1,5 bilhão em investimentos. O primeiro trecho foi licitado por R$ 780 milhões. Pelo menos R$ 20 milhões foram gastos pelo DF antes da suspensão do projeto, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU).

O VLT era o principal projeto para melhorar a mobilidade urbana em Brasília para a Copa do Mundo. O projeto original do VLT sairia do aeroporto e atravessaria todo o Plano Piloto, em um percurso com 25 estações e 22,6 quilômetros.

As obras, porém, foram suspensas cinco vezes pela Justiça e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Por fim, a 7ª Vara de Fazenda Pública do DF decidiu anular o contrato da obra em abril de 2011, tornando inviável a conclusão do modal a tempo da Copa. O cancelamento do VLT para o Mundial foi oficializado em setembro de 2012.

Em 2015, o Metrô do Distrito Federal – responsável pela obra – informou ao G1 que aquele projeto para o VLT havia sido cancelado e que estudava “novos traçados para o veículo”. Três anos depois, nenhum novo plano foi anunciado.

O jardim Burle Marx

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: jardim Burle Marx, em Brasília (Foto: TV Globo/Reprodução)Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: jardim Burle Marx, em Brasília (Foto: TV Globo/Reprodução)

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: jardim Burle Marx, em Brasília (Foto: TV Globo/Reprodução)

  • O que foi prometido: um projeto de urbanização inspirado nos conceitos do paisagista Roberto Burle Marx – com espelhos d’água e dezenas de novas árvores – começou a ser tocado em 2013.
  • A situação atual: as obras continuam em andamento. O governo do Distrito Federal ainda não informou um novo prazo de entrega.
  • Os valores: a obra completa é orçada em R$ 21 milhões, incluindo um aditivo de R$ 1,59 milhão assinado após o contrato inicial. Segundo o governo, foram pagos R$ 11,77 milhões nesse contrato.

O projeto era tocado pela construtora Vale do Ipê, em um contrato sob responsabilidade da Novacap – empresa pública do DF responsável pela manutenção do espaço urbano. Em janeiro deste ano, o contrato foi rescindido sem que a obra, prometida para 2014, fosse concluída.

O projeto, com potencial para ser um cartão postal da cidade, começou a ser executado em 2013, mas acabou abandonado – o local se tornou ponto de uso de drogas. Depois que o Mundial ficou para trás, a Novacap deu novo prazo: outubro de 2017. A promessa não foi cumprida, o que levou à rescisão.

Segundo a Novacap, o contrato com a empresa Vale do Ipê foi encerrado com 60% da primeira etapa executada. A segunda parte da obra chegou a 30%.

Por enquanto, tem sido feito o plantio de árvores e de grama. O jardim tem sido finalizado por meio de “obra direta”, com uso de mão de obra da própria Novacap.

Devido à crise hídrica, a companhia informou que não pretende finalizar o espelho d’água – mas não disse o que fará para resolver o projeto. O governo do Distrito Federal ainda não deu novo prazo de entrega.

As calçadas do Setor Hoteleiro

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: calçada no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília (Foto: Ana Luiza de Carvalho/G1)Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: calçada no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília (Foto: Ana Luiza de Carvalho/G1)

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: calçada no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília (Foto: Ana Luiza de Carvalho/G1)

  • O que foi prometido: reforma das calçadas dos dois setores hoteleiros de Brasília, um na Asa Sul e um na Asa Norte.
  • A situação atual: as calçadas continuam com problemas – a maior parte está quebrada e alguns lugares não têm acessibilidade para pedestre. No Setor Hoteleiro Sul, o piso tátil (com indicações para deficientes visuais) existe em quase todas as entradas de estacionamento, mas está muito desgastado.
  • Os valores: em 2014, a Novacap informou ter investido R$ 1 milhão nas calçadas, entre calçamento e acessibilidade.

A gestão Agnelo prometeu reformar as calçadas dos setores hoteleiros Norte e Sul para atender melhor os turistas que viessem para a Copa do Mundo – segundo a Secretaria de Turismo do DF, 633 mil pessoas visitaram a capital durante a competição, sendo 144 mil estrangeiros.

A obra não foi entregue a tempo. Em 2015, já na gestão de Rodrigo Rollemberg (PSB), a Novacap informou que a reforma foi cancelada e enviada de volta à fase de estudos.

Segundo a empresa pública, o projeto das calçadas do Setor Hoteleiro Norte foi revisto, e aguarda aprovação técnica do próprio governo para entrar em fase de licitação. Para o Setor Hoteleiro Sul, a Novacap diz estar finalizando o orçamento para ações de “acessibilidade e conexão cicloviária”.

Os túneis na área central

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: túneis e passagens no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Foto: TV Globo/Reprodução)Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: túneis e passagens no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Foto: TV Globo/Reprodução)

Obras não entregues para a Copa do Mundo de 2014: túneis e passagens no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Foto: TV Globo/Reprodução)

  • O que foi prometido: túneis que ligassem os estacionamentos do Parque da Cidade ao Mané Garrincha, ao Centro de Convenções e ao Clube do Choro.
  • A situação atual: as obras não começaram; ainda não há previsão de início.
  • Os valores: os túneis foram incluídos na licitação de R$ 285 milhões, referente ao “entorno do estádio” e citada acima. Apesar dos R$ 6,98 milhões desembolsados pelo governo, nenhum canteiro de obras foi aberto para a criação dos túneis.

Para a maioria dos torcedores, a Copa do Mundo em Brasília ficou concentrada em um raio de menos de 2 km. A central de ingressos e de credenciamento mantida pela Fifa ficava no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. De um lado do Eixo Monumental, estava o Mané Garrincha. Do outro, os bolsões de estacionamento do Parque da Cidade, com vagas para 16 mil carros.

Para qualificar a cidade para receber mais jogos do Mundial – Brasília ficou com sete, o número máximo determinado pela Fifa –, o governo do DF prometeu construir túneis que ligassem esses espaços. Essas obras nunca saíram do papel.

Em 2015, já na gestão de Rodrigo Rollemberg, a Novacap informou que as interligações viárias e as ligações de pedestres na região “tinham projeto executivo” e “aguardavam recursos”. O governo acrescentou à promessa a entrega de uma via de ligação entre a W4 Norte e a W4 Sul.

A construção começaria em fevereiro de 2016, com previsão de entrega em 12 meses. O investimento estimado era de R$ 285 milhões. As obras, novamente, nunca saíram do papel.

G1 pediu novo posicionamento do governo sobre a obra, mas não recebeu retorno.

As obras prontas

Torneio Feminino de Futebol no estádio Mané Garrincha, em abril de 2015 (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)Torneio Feminino de Futebol no estádio Mané Garrincha, em abril de 2015 (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

Torneio Feminino de Futebol no estádio Mané Garrincha, em abril de 2015 (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília)

O entorno não ficou pronto, mas o estádio Mané Garrincha está entregue. O valor real de construção é disputado pelos envolvidos – empresas, governadores e órgãos de fiscalização. As estimativas variam entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,1 bilhões, a depender dos contratos considerados. Em todas elas, a arena é a mais cara da Copa de 2014.

O sucesso de público, porém, ainda não foi alcançado. Em 2018, foram disputados 11 jogos no Mané. O que levou mais público – Brasiliense 0 x 1 Sobradinho, na segunda partida da final do Campeonato Brasiliense – registrou 5.016 pagantes. O número é suficiente para preencher 6,9% das 72.788 cadeiras da arena.

Neste ano, o Mané Garrincha voltou ao noticiário quando um relatório da Controladoria-Geral do DF apontou que uma conta de água de R$ 1,1 milhão no estádio foi causada por um erro de execução na obra e quando o Ministério Público Federal denunciou dois ex-governadorespor corrupção nos contratos do estádio.

Centro Integrado de Comando e Controle, com verba federal, foi entregue a tempo e funcionou na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. Nele, trabalharam 8,5 mil integrantes das forças local e nacional de segurança – policiais militares e civis, bombeiros e representantes de 44 órgãos dos governos federal e do DF.

Vista aérea do Aeroporto de Brasília (Foto: Bento Viana/Inframérica)Vista aérea do Aeroporto de Brasília (Foto: Bento Viana/Inframérica)

Vista aérea do Aeroporto de Brasília (Foto: Bento Viana/Inframérica)

Também foi concluída a ampliação do Aeroporto de Brasília. As obras foram tocadas pela Inframérica, vencedora da concessão assinada em junho de 2012 – o investimento foi de R$ 1,2 bilhão. Com o contrato, o consórcio ficou responsável pela gestão e reforma do terminal em troca do direito de explorar o espaço comercialmente por 25 anos.

A única obra de mobilidade urbana presente na última versão da matriz de reponsabilidades acordada com governo do DF e Ministério do Esporte antes da Copa – a ampliação da DF-047 e construção de viaduto na W3 Sul – também foi entregue a tempo do Mundial.

Fonte: Quidnovi/G1